sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Documentário da BBC sobre Murakami!

Por puro acaso encontrei no youtube, dividido em oito partes de aproximadamente 7 minutos, um documentário que passou há três meses na BBC, e que fala exclusivamente de Haruki Murakami. Os filmes não trazem legendas, por isso é necessário compreender inglês para entender. Alan Yentob, o apresentador, explora a Tóquio nocturna, e vai em busca de entender a origem de todo o fenómeno à volta do escritor japonês. Para isso, consegue uma entrevista por email com o próprio Haruki. Mas não se fica por aí - à conversa com leitores, tradutores, e até com um gato falante...
















quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Perguntas e Respostas sobre... 1Q84!



O que é o 1Q84?
É o mais recentemente lançado romance de Haruki Murakami, no Japão.

É composto por partes?
O romance é composto até ao momento de três partes, chamadas de Livro 1, Livro 2, e Livro 3. O autor disse numa entrevista há alguns meses que está indeciso entre continuar nesta história (com um Livro 4 ou Livro 0), ou "partir para outras paragens".

Quando foi lançado no Japão?
Os Livros 1 e 2 foram lançados a 29 de Maio de 2009. O Livro 3 foi lançado a 16 de Abril de 2010.

Foi best-seller?
Absolutamente. A primeira edição dos primeiros livros esgotou no próprio dia, superando todas as expectativas. Ao fim de um mês tinha já vendido 1 milhão de cópias. Quanto ao Livro 3 vendeu igualmente bem, tendo sido o segundo livro mais vendido no Japão o ano passado.

Em que países já se encontra traduzido?
Já se encontra traduzido na Coreia do Sul, na Alemanha, e agora está prestes a ser lançado em Espanha - dia 1 de Fevereiro.

Ainda não existe tradução em inglês? Quem o vai traduzir?
A tradução inglesa será lançada, tanto na América como na Grã-Bretanha, em Setembro deste ano. A tradução dos dois primeiros livros está a cabo de Jay Rubin (já traduziu Crónica do Pássaro de Corda; Norwegian Wood; After Dark...) e a do terceiro será da autoria de Philip Gabriel (Kafka à Beira-Mar; Sputnik, Meu Amor; A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol...).

E em relação a Portugal e ao português?
A edição portuguesa está agendada para o Outono deste ano, e será editada pela Casa das Letras. A obra será traduzida por Maria João Lourenço (a tradutora da maioria das obras do autor em Portugal). Desta vez a tradução será feita não do inglês, mas sim do alemão. Serão lançados os livros separadamente, sem serem em volumes que os juntam como noutros países. Para este Outono, pois, trata-se apenas do Livro 1.

O que significa o título?
Em Japonês, o som "Q" é semelhante a "9", daí que o título seja um trocadilho com "1984". Este último é o título de um famoso clássico de George Orwell, escrito na década de 40, e que era uma tentativa de previsão do futuro próximo; Murakami aproveita-se do título não com o mesmo objectivo, mas com o inverso: imaginar o passado recente.

De que temas fala a obra?
A tradutora Maria João Lourenço escreveu uma crónica para o blog, que pode ser lida carregando aqui, onde fala sobre o mote inicial do enredo.

Há algum sítio onde se possa matar um bocadinho a curiosidade?
Sim - haver há, só que é em Castelhano. A editora que vai publicar o livro na nossa vizinha Espanha disponibilizou online um excerto de três capítulos a todos os fãs particularmente ansiosos. Podes ler o excerto carregando aqui.

E se eu tiver mais dúvidas?
Nesse caso deixa um comentário, e o MURAKAMI PT investiga e arranja uma maneira de te dar a resposta. Nem que seja um "É impossível responder a isso para já...".

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

[Crónicas da Tradutora] - Debaixo do Vulcão


«O Segundo Assalto à Padaria»

Se há histórias de Murakami que despertam a minha imaginação, em todos os sentidos, esta é uma dela. Sono é outra que tal, e sobre ela terei de me debruçar, numa crónica futura. A começar pelo título e a acabar no final, perfeitamente conseguido, segundo as regras mais ou menos elaboradas que ditam a arte de bem escrever contos. Agora que se estreou a curta-metragem inspirada no conto «O Segundo Assalto à Padaria», assinada pelo mexicano Carlos Cuarón e interpretada por Kirsten Dunst e Brian Geraghty, reforço o meu sentimento de apego a uma história nascida de uma mente tão singular como a de Murakami e, ao mesmo tempo, tão universal. Vejo as imagens que circulam na net e penso: Quentin Tarantino cruza-se com Woody Allen? E não, não estou a falar dos símbolos que atravessam a escrita de Haruki Murakami; neste caso concreto, não me refiro à Remington automática empunhada pela personagem feminina em pleno ataque à casa de hambúrgueres nem ao McDonald's, alvo dos assaltantes... esfaimados.

Espero ter conseguido despertar a vossa atenção. Na verdade, este conto é bem mais profundo do que a primeira leitura poderá sugerir. «Por qualquer motivo, acordámos precisamente ao mesmo tempo», conta ele, o jovem «boku» (narrador). Estão os dois deitados, ainda não partilham todos os segredos nem todas as rotinas. Acordam e experimentam uma fome terrível: são dores que se fazem sentir «com a violência igual à do tornado em O Feiticeiro de Oz». Terá o facto de estarmos diante de dois recém-casados alguma coisa que ver com o assunto? Com alguma necessidade interior mais profunda? Sabemos que o frigorífico está quase vazio, não há comida nos armários da cozinha. Ele sugere que vão à procura de um restaurante próximo; ela recusa-se a sair de casa depois da meia-noite.

Enquanto ele mergulha na imagem de um vulcão nas profundezas do mar que a fome extrema fez crescer dentro dele, aos olhos dela, a fome surreal só pode ser o resultado de uma maldição. Daí que seja a mulher a pegar em armas e a liderar o assalto à padaria, que nos tempos modernos só poderia ser um McDonald's, estava-se mesmo a imaginar. «Um autor original inventa sempre um mundo original, e se uma personagem ou uma acção cabe no padrão desse mundo, então sentimos o agradável choque da verdade artística, por mais improvável que a pessoa ou a coisa possam parecer se transferidas para aquilo a que os críticos literários, pobres escrevinhadores, chamam "vida real"», já lá diz Vladimir Nabokov nas suas Aulas de Literatura (Relógio D'Água, tradução de Salvato Telles de Menezes).

O episódio que dá origem ao tal segundo ataque à padaria vem de trás. Quatro anos antes de escrever este conto, datado de 1989, Murakami publicou uma história chamada «O Assalto à Padaria» (Pan'ya shūgeki), É precisamente esse episódio, contado pelo marido a meio de uma noite de fome opressiva, que desencadeia a imaginação fértil da mulher, neste conto que faz as minhas delícias e cumpre aquela regra de ouro: rapaz encontra rapariga, os dois apaixonam-se, depois casam-se e começam as surpresas. O que nunca deixa de me espantar nesta história, e o que faz dela uma pequena e delicada pérola literária, é a capacidade demonstrada pelo escritor japonês de traçar o retrato interior das suas personagens em meia dúzia de páginas, conseguindo ao mesmo tempo captar o cenário e transportar o leitor - todos os leitores - nessa viagem ao fundo da alma. Aquele homem e aquela mulher, sejam eles os passageiros da noite que Murakami idealizou em Tóquio, ou tenham eles os rostos ocidentais que vivem na fronteira do Texas, na curta de Quadrón, (http://www.slashfilm.com/kirsten-dunst-carlos-cuarns-the-bakery-attack/), podem ser todos os jovens recém-casados, à medida que se descobrem um ao outro, enquanto partilham as últimas migalhas de um pacote de bolachas amolecidas.

«Porventura a mais perfeita destilação poética da visão de Murakami», escreveu Jay Rubin no seu livro Haruki Murakami and the Music of Words. Este conto mostra Murakami no pleno domínio da arte do conto, um perfeito herdeiro do Tchékov que ele tanto ama enquanto leitor. Que nos importa se Murakami continua a negar a importância dos símbolos na sua obra? No fundo, todos temos um vulcão dentro de nós.

Maria João Lourenço

Maria João Lourenço, tradutora das obras de Haruki Murakami para o português, iniciou uma parceria com o blog MURAKAMI PT, e assina a cada mês uma crónica por si escrita, que aborda um dos múltiplos temas que o autor japonês abrange.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Excerto Online de 1Q84 em Espanhol


Será já em Fevereiro deste ano que, por 25€, serão postos à venda em Espanha os Livros 1 & 2 de 1Q84, que obtaram por uma edição que junta os dois volumes. A tradução, a cargo de Gabriel Álvarez, ficou com um total de 744 páginas, e podem ver a imagem da capa acima.

A notícia a dar pelo MURAKAMI PT seria tão breve como isto - talvez acompanhada de um lamento por, desta vez, os espanhóis terem conseguido publicar um livro do autor antes de nós - seria breve, dizia eu, se não se desse o caso de estar associada a um anexo que a editora Tusquets, que detém os direitos da obra em Espanha, cedeu e que a mim muito me agradou.

Estão disponíveis para download em pdf, e para leitura, os primeiros três capítulos da obra! Isto assume proporções importantes porque até agora o que os leitores portugueses tinham de mais inteligível para além de excertos em japonês eram em alemão... e mesmo assim não estou certo da legalidade desses excertos. Agora em espanhol é outra história - a maioria de nós conseguirá entender com facilidade a maioria das palavras destes três primeiros capítulos. PODEM TER ACESSO AO EXCERTO CARREGANDO AQUI. Agora os leitores mais ansiosos podem matar um pouco a saudade de ler Murakami.

Já leram a primeira linha? Parece promissor, o começo, com esta Sinfonietta, não parece? Terminemos o post a ouvi-la. Eu não a conhecia, fui pesquisar, e fiquei de boca aberta. Que começo épico.




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Estamos no Facebook!


Depois de uma experiência na qual acabámos por não apostar, voltámos a entrar hoje no Facebook - desta vez com o empenho necessário que tal actualização deve conter. Sendo nossos seguidores no Facebook, poderão estar mais facilmente actualizados de quando existem posts novos no blog, visto que todas as novidades que formos colocando aqui serão noticiadas por lá. Podem aceder à página do Facebook do Murakami PT carregando aqui.

Por vezes existem ainda alguns artigos que não traduzimos, ou por serem muito parecidos com outros, ou por debatarem assuntos que também já tratámos. Com esta nova ferramenta, passamos a divulgar por lá mais links que eventualmente não cheguem a ter importância de um post no blog.

Queremos pedir desculpa pelo facto de ainda não termos colocado aqui no blog a crónica da tradutora Maria João Lourenço, que, à semelhança do que aconteceu no mês de Dezembro, passará a ser publicada no primeiro dia de cada mês, sempre debruçando-se sobre um dos múltiplos sub-temas diferentes que Murakami nos oferece para debater. Dentro dos próximos dias poderão encontrá-la aqui, visto ser-nos impossível de momento.

Aproveitamos ainda este post para desejar um feliz ano novo 2011 para todos os leitores de Murakami, com muitas leituras do japonês pelo meio!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Realidade A e Realidade B [Crónica de Haruki Murakami]


Há um mês foi publicada no The New York Times uma crónica de Haruki Murakami, traduzida para o inglês por Jay Rubin, e enquadrada na Agenda Global 2011. O texto é agora traduzido pelo MURAKAMI PT, com as suas imperfeições naturais, mas com a equipa do blog segura de que fez a sua melhor tentativa possível ao traduzir as palavras. Esperemos que fiquem bem com esta mensagem do autor japonês, que serve perfeitamente de mensagem de ano novo, para que todos entremos em 2011 com optimismo e determinação.



Quais foram os acontecimentos que demarcaram o espírito do século XXI do do XX? De uma perspectiva global, foram, primeiro que tudo, a destruição do Muro de Berlim e o consequente rápido fim da Guerra Fria; e em segundo, a destruição das torres do World Trade Center no 11 de Setembro de 2001. O primeiro acto de destruição foi cheio de esperanças brilhantes, enquanto que o segundo foi uma devastadora tragédia. A convicção global no primeiro acontecimento de que “o mundo será melhor do que nunca” foi totalmente deitada por terra pelo desastre do 11 de Setembro.

Estes dois actos de destruição, que ocorreram nos diferentes lados do virar do milénio, com contextos tão diferentes em cada um deles, parecem ter-se juntado num único par que transformou fortemente a nossa mentalidade.

Ao longo dos últimos 30 anos, escrevi ficção em variadas formas, desde contos a romances longos. A história é desde sempre um dos mais fundamentais conceitos humanos. Apesar de cada história ser única, funciona como parte integrante de algo que pode ser partilhado e trocado com os outros. Essa é uma das coisas que dá às histórias o seu significado. As histórias mudam de forma livre à medida que vão inspirando o ar de cada nova era. Tendo como princípio serem mediadoras de transmissão cultural, as histórias variam drasticamente quanto ao modo de apresentação que usam. Como estilistas da moda, nós escritores vestimos histórias, à medida que elas mudam de forma no dia-a-dia, em palavras vestidas à sua medida.

Visto de uma perspectiva de tal forma profissional, parece que a interface entre nós e as histórias que encontramos enfrentam uma mudança maior do que nunca no período anterior ao mundo começar a traçar o princípio de um milénio. Se esta mudança é positiva ou menos bem aceite, isso não estou em posição de julgar. Tudo o que posso dizer é que provavelmente nunca voltaremos ao ponto de onde começámos.

Falando por mim, uma das razões por que sinto isto tão fortemente é o facto da ficção que escrevo estar ela mesma em perceptível transformação. As histórias dentro de mim vão mudando de forma à medida que inalam novas atmosferas. Eu consigo sentir claramente esse movimento a acontecer dentro do meu corpo. Além disso, ao mesmo tempo, existe uma mudança substancial na maneira como os leitores recebem a ficção que escrevo.

Tem havido uma mudança especialmente particular na postura dos leitores europeus e americanos. Até agora, os meus livros eram vistos em termos do século XX, entrando nas suas mentalidades através de portas denominadas como “post-modernismo”, ou “realismo mágico”, ou “orientalismo”; mas desde o momento em que as pessoas deram as boas-vindas ao novo século, gradualmente começaram a remover do seu dicionário mental os “ismos” e a aceitar os mundos das minhas histórias mais perto daquilo que realmente são. Tenho uma forte percepção desta mudança sempre que visito a Europa e a América. Parece-me que as pessoas estão a aceitar as minhas histórias tal como são – caóticas muitas das vezes, perdendo a lógica em variados momentos, e nas quais a composição da realidade é rearranjada. Ao invés de analisarem o caos de que são compostas as minhas histórias, parecem ter começado a conceber um novo interesse na tarefa de descobrir como se encaixarem nelas.

Em contraste, a maioria dos leitores em países asiáticos nunca sentiram necessidade da catalogação de teorias literárias quando liam as minhas obras. A maioria dos asiáticos que decidiram ler os meus livros, aparentemente aceitaram as histórias que escrevi como relativamente “naturais” desse ponto de vista exterior. Primeiro veio a aceitação, e depois (se necessário) vem a análise. Na maioria dos casos no ocidente, apesar de tudo, com alguma variação, a análise lógica chegou antes da aceitação. Tais diferenças entre o Ocidente e o Oriente, no entanto, parecem estar a desaparecer no decorrer dos anos, devido à influência que vão dando um ao outro.

Se eu tivesse de nomear um separador no processo pelo qual o mundo tem estado a passar nos últimos anos, chamá-lo-ia de “realinhamento”. Depois do fim da Guerra Fria começou um realinhamento a nível político e económico. Pouco há para ser dito acerca do realinhamento da área das tecnologias de informação, com o incrível e global estabelecimento de novos sistemas. Vivendo no centro destes processos, obviamente, seria impossível à literatura tomar uma posição em tal realinhamento e impedir tal mudança no sistema.

Uma das dificuldade que surgem neste processo de realinhamento é a perda – ainda que apenas temporária – de eixos coordenados através dos quais se formam normas de evolução. Estes eixos estiveram cá até agora, funcionando como bases sustentáveis na medição do valor das coisas. Estavam sentados na ponta da mesa como os “chefes de família” dos valores, decidindo o que era aceitável e o que não era. Agora acordamos e descobrimos que não apenas o chefe da mesa como a própria mesa desapareceu. À nossa volta, parece que as coisas foram – ou estão a ser – engolidas pelo caos.

Quando eu oiço a palavra “caos”, automaticamente me lembro das imagens do 11 de Setembro – aquelas cenas chocantes que foram mostradas um milhão de vezes na televisão: os dois aviões chocando contra as paredes de vidro das Torres Gémeas, as torres desabando sem avisar, imagens que continuam a ser inacreditáveis mesmo depois de um milhão e uma visualizações. O enredo que foi sucedido com miraculosa perfeição – uma perfeição que atingiu um nível próximo do surreal. Se o puder dizer sem ter medo de ser mal entendido, as cenas até pareciam ser qualquer coisa feita a computador para um filme de Hollywood.

Frequentemente imaginamos como teria sido se o 11 de Setembro nunca tivesse ocorrido – ou pelo menos se o plano não tivesse sucedido de forma tão perfeita. Se assim fosse, o mundo teria sido muito diferente do que é hoje. A América podia ter um presidente diferente (possibilidade muito grande), e a guerra no Iraque e no Afeganistão poderiam nunca ter ocorrido (possibilidade ainda maior).

Vamos chamar ao mundo que verdadeiramente temos agora a Realidade A, e ao mundo que poderíamos ter tido se o 11 de Setembro nunca tivesse acontecido a Realidade B. Não podemos deixar de reparar que o mundo da Realidade B parece mais realístico e racional do que o mundo da Realidade A. Para pôr o caso em termos diferentes, estamos a viver num mundo que tem um nível ainda menor de realidade do que o mundo irreal. O que podemos chamar a isto senão “caos”?

Que tipo de significado pode ter a ficção numa época como esta? Que propósitos pode ela servir? Numa altura em que a realidade é insuficientemente real, quanta realidade pode uma história ficcional ter?

Sem dúvida, este é o problema que nós escritores agora enfrentamos, a questão que nos foi dada. No momento em que as nossas mentes atravessaram o princípio do novo século, também nós atravessámos o início de uma nova realidade. Não tivemos escolha senão em atravessar, e, como podemos confirmar, as nossas histórias são obrigadas a mudar a sua estrutura. Os romances e as histórias que escrevemos tornar-se-ão sem dúvida cada vez mais diferentes em carácter e sentimento das que existiam antes, tal como a ficção do século XX é nítida e claramente diferenciada da do século XIX.

O objectivo principal de uma história não é julgar o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau. Mais importante para nós é determinar se, dentro de nós, os elementos variáveis e os valores tradicionais estão a mover-se em frente em harmonia uns com os outros, para determinar se as nossas histórias individuais e as histórias comuns aos outros estão juntas neste caminho.

Por outras palavras, o papel de uma história é manter o carácter de ponte espiritual que foi construída entre o passado e o futuro. Novas normas e valores emergem naturalmente deste processo. Para isso acontecer, temos primeiro de respirar profundamente o ar da realidade, o ar das coisas tal como elas são, e temos de aceitar sem preconceito a maneira como as histórias estão a mudar dentro de nós. Temos de cunhar novas palavras em consonância com o respirar dessa mudança.

Nesse sentido, ao mesmo tempo que a ficção (histórias) ultrapassa um severo teste, surge uma oportunidade sem precedentes. Claro que à ficção sempre foi delegada uma responsabilidade e questões com que lidar em cada época, mas sem dúvida que a responsabilidade e as questões são especialmente importantes agora. As histórias têm a função que só elas podem tomar, e que é “tornar tudo numa história”. Transformar as coisas e os acontecimentos à nossa volta na metáfora do formato das histórias, e sugerir a verdadeira natureza das situações no dinamismo dessa substituição: essa é a função mais importante da ficção.

No meu último romance, 1Q84, eu mostro não o futuro próximo como George Orwell, mas o contrário – o passado próximo – de 1984. E se tivesse havido um 1984 diferente, não o 1984 original que conhecemos, mas outro, um 1984 transformado? E se fôssemos subitamente atirados para esse mundo? Isso seria, claro, um passo na direcção de uma nova realidade.
No intervalo entre a Realidade A e a Realidade B, na inversão das realidades, quando longe podemos nós preservar os nossos valores adquiridos e, ao mesmo tempo, a que novos valores poderíamos nós aceitar e seguir com eles? Este é um dos temas do trabalho. Passei três anos a escrever esta história, tempo através do qual passei este mundo hipotético por mim próprio enquanto simulação. O caos ainda lá está – em medidas estrondosas.

Mas depois de uma boa dose de tentativa e erro, tenho a forte sensação que finalmente estou a conseguir metê-lo nos termos de uma história. Talvez a solução comece por lentamente aceitar o caos não como algo que “Não devia estar aqui”, rejeitado fundamentalmente logo de princípio, mas como algo que “é realmente um facto”.

Talvez seja demasiado optimístico. Mas como contador de histórias, como um esperança piloto da mente e do espírito, não consigo deixar de pensar desta forma – que também o mundo, após uma boa quantidade de tentativa e erro, chegará a uma nova convicção que está a chegar, que o mundo irá descobrir algumas pistas que sugerem a solução, porque, finalmente, tanto o mundo como a história já passaram pelo começo de muitos séculos e por muitas metas para sobreviver até ao dia presente.


Data: November 29, 2010
Fonte: The New York Times
Por: Haruki Murakami
Em: http://www.nytimes.com/2010/12/02/opinion/global/02iht-GA06-Murakami.html?pagewanted=1&_r=2