segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Uma leitura de 1Q84...


Opinião do Tiago do blog MURAKAMI PT. Fotografia do Tiago.

O primeiro capítulo desta obra é condição suficiente para o vínculo Murakami-Eu ser criado. E isto é de louvar. Primeiro, porque a minha experiência relativa aos livros deste autor japonês é a de começos pouco entusiasmantes, exceptuando um ou dois casos. O primeiro volume de 1Q84 tem início no interior de um táxi preso num congestionamento de trânsito. Toca na rádio a Sinfonietta, obra clássica de Leos Janacek. A mulher está com pressa, e não tem vontade de esperar horas naquela fila. E estão lançados os dados para aquela que é, provavelmente, a cena inicial mais épica de toda a carreira de Haruki Murakami enquanto romancista. O mérito de um excelente primeiro capítulo: no mínimo, já tem este prémio. 

 A obra intercala capítulos narrados pelas duas personagens principais: Aomame, e Tengo. Tenho uma opinião muito clara... na primeira fase do livro, os capítulos dela são muito mais fortes que o dele. O que não significa que as coisas não mudem de figura mais à frente. Sentia até um certo anti-clímax quando chegava a um capítulo de Tengo: "pronto, meia-hora sem Aomame". 

 Os cenários que Murakami cria são fabulosos porque nos levam para lá. A magia respira-se com facilidade. Destaco a cena da estufa das borboletas. Os diálogos entre as personagens são óptimos, fluem com uma consistência assustadora. E, de tão naturais são, que conseguem mexer com as nossas emoções, ao ponto de me fazerem rir tantas vezes. Esta é uma característica que me interessa muito em Murakami. O ambiente é de realismo fantástico, respira-se magia, mas magia sóbria: e, no entanto, consegue fazer-me rir tantas vezes. Destaco como exemplo o ensaio para a conferência de imprensa! 

 Depois desce às zonas mais profundas. A violência doméstica, por exemplo. As seitas religiosas e o mistério que criam à sua volta. Aventura-se pelos caminhos do que é realidade e do que é imaginação. É difícil fazer ver a minha opinião: com Murakami é particularmente difícil. A tradução é envolvente e torna a obra de leitura extremamente agradável: o trabalho conjunto de Maria João Lourenço e de Maria João da Rocha Afonso resulta numa harmonia digna de nota - uma harmonia murakamiana que já é tão típica para os leitores portugueses. 

 No entanto, e apesar de todos estes pontos positivos, e apesar de uma parte de mim ter ficado a morar naquele universo enquanto aguardo pelo lançamento do volume 2 para Março, e apesar daquele mundo ter tanta coisa interessante por contar, não foi uma experiência de imersão tão forte como já tive em alguns outros livros dele. Talvez por não se cravar de forma tão funda no universo das não-explicações. Talvez por abordar temáticas demasiado reais como a questão das seitas e da violência doméstica. Talvez pela insuficiente exploração do lado solitário das personagens... não sei, mas Aomame e Tengo não me conquistaram totalmente. Fico à espera do próximo com o entusiasmo em níveis altos, mas... mas... 

 É difícil falar de 1Q84 mas é fácil ler 1Q84. Somos levados a passear por uma Tóquio alternativa, viva, não tão vibrante como a de After Dark, mas ainda assim entusiasmante. Temos as cenas de ternura elevadas ao expoente máximo, como a leitura de Tchékov em voz alta. Temos as cenas de fazer crescer água na boca, como o jantar no restaurante de luxo. Temos personagens de todos os géneros e feitios, uma obra verdadeiramente diversificada neste aspecto! E uma linguagem que nos remete constantemente para imagens ilustrativas dos pensamentos das personagens... ficamos perturbados pelo comportamento de algumas delas. O mistério é outra das componentes, mas não gosto de associar essa palavra à obra do autor, parece-me sempre demasiado redutor. Duas personagens que passam para lá da linha do razoável e vão parar a não sabem onde, sem saírem do sítio. Já não estamos em 1984.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

«O ADN de um solitário» - Artigo do jornal i


Artigo de dia 12 de Novembro de 2011 no jornal i, assinado por Diana Garrido. Seguem-se as duas folhas em miniatura, carregue-se nos links por baixo de cada imagem para se ver em resolução grande. Publicadas no blog com a devida autorização do jornal.




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Murakami em dose tripla no P3!


O toque de Murakami
por Maria João Lourenço, publicado no P3 a 7 de Novembro de 2011.

Aos jovens, Haruki Murakami toca-lhes na corda sensível, primeiro que tudo. O resto vem depois. É como interpreto, numa primeira leitura, a ternura com que pegam nos livros, sopesando um calhamaço como "Crónica do Pássaro de Corda" ou revirando entre os dedos o pequeno volume de "Sputnik, Meu Amor". Vejo-os todos os anos, na Feira do Livro, aproveitando a oportunidade (leve quatro, pague três...), e sei do que falo porque aproveito muitas vezes para conversar com eles. Depois, acontece que os vejo por vezes enquanto lêem, ensimesmados, indiferentes aos olhares. Sigo ainda o que escrevem nos blogues. 

Murakami toca-lhes fundo. De forma inteligente, sem paternalismo e com humor. Quando fala da ternura e do sexo. Da vida em família e da camaradagem (ou da ausência dela) na escola. Da cumplicidade e da estranheza das ligações que se vão estabelecendo... ah, só o tema das chamadas telefónicas dava para um artigo. Da solidão. Da violência. Peguem em Kafka, o de Murakami, claro, Tamura de seu nome. Juntem-lhe Johnnie Walker (atenção, não beber o sangue). Sabiam que há uma página do MySpace criada por João Tamura? Onde terá o jovem ido buscar o apelido? O mundo é um sítio violento, Murakami sabe disso, mas nos seus romances interioriza a violência e trata esse tema com uma estranha e desarmante candura: quem conhece o seu discurso proferido aquando da entrega do Prémio Jerusalém ("O muro e o ovo"), percebe. Por outro lado, é bom não esquecer que Murakami se considera, no fundo, um optimista. Como ele diz, as suas personagens "acabam por encontrar uma solução para superar os seus problemas, mas têm de sofrer pelo caminho". 

Os leitores vivem com as personagens, daí a importância dos rituais que percorrem o nosso quotidiano. Entre gestos simples, como lavar as mãos e pentear os cabelos, ou descascar uma maçã, preparar um jantar ao som de Puccini enquanto uma pessoa espera que o paisagem em volta se revele porventura menos deformada. Acredito que o Tiago, do blogue Murakami PT, feche muitas vezes os olhos, olhe para o tecto e e deixe escapar um suspiro profundo pleno de sugestões e possibilidades, como acontece com o Tengo, na página 119 do "1Q84". "Sinto que ele consegue sintonizar de forma sublime o que corre dentro de nós", confessa o Tiago. Tengo, Aomame, Kafka, Hajime, Izumi, Toru, Kumiko e tantas outras, são personagens que têm nome japonês mas falam ao coração dos leitores jovens de todo o mundo. E, depois, este japonês apela à leitura. Conheço quem tenha saído de lá, de dentro dos seus romances, pronto para devorar Dickens e Dostoiévski, Tchéhov, Hammett, Shakespeare, Carver, só para citar meia dúzia. Sei de muito boa gente que começou a escrever por causa dele. 

Murakami abre o seu coração aos jovens e fala-lhes ao ouvido. Não admira que as raparigas espanholas que o receberam na Catalunha, quando ali foi receber um prémio, o quisessem beijar...



Haruki Murakami: poços, gatos, jazz e mulheres misteriosas
por Simão Miranda, publicado no P3 a 7 de Novembro de 2011.

Poços, gatos, jazz e mulheres misteriosas. Dito assim pode soar um pouco redutor, mas a verdade é que a prosa do autor japonês Haruki Murakami ronda muito em torno destes temas ambíguos. 

Muitas vezes literal mas, sobretudo metaforicamente, Murakami consegue chegar até nós através de longas narrativas sobre solidão, alienação e até crítica social sobre a geração actual do Japão, tão cheia de si mesma, de consumismo e de trabalho inconsequente. 

Longas narrativas como as longas maratonas que o próprio Murakami costuma fazer na sua vida real como forma de ter força para “abrir a porta”, a porta que lhe permite chegar até à Outra Sala onde tudo acontece. Claro que precisa sempre de voltar, e é aí que entra a vida rotineira e regrada que o próprio não trocaria por nada. 

À semelhança de um Salinger ou de um Kafka, Murakami vive uma vida controlada e nada boémia: acorda antes das cinco da manhã, trabalha durante cinco horas, corre de tarde, ouve música depois do jantar e deita-se às nove da noite.
 

Prefere estar só, a fazer algo que o complete, do que a falar com alguém e certamente esta faceta da sua vida reflecte-se nas suas personagens: solitárias, pensativas e por vezes apáticas, engolidas pela monumentalidade da grande máquina que é a sociedade em que vivem, daí o isolamento. Procuram o poço onde estão inatingíveis e seguras, desistem de procurar pelo gato que nunca irá reaparecer e deixam-se embrenhar na escuridão total até passarem para o outro lado. 

É compreensível o enorme sucesso de Murakami – especialmente entre os jovens – pois podem relacionar-se facilmente com as personagens retratadas. Talvez sem grandes esperanças, o que lhes resta é descerem ao metafórico poço e esperar que possam encontrar a porta para o outro lado.
 

Num registo bastante kafkiano (tudo é completamente "normal" no universo de Murakami), com um humor requintado e vastas referências musicais e literárias (um piscar de olho ao seu passado como dono de um clube de jazz), a prosa de Murakami é única no mundo, possui um género próprio (Realismo Mágico) e atingiu já o estatuto de fenómeno de culto.
 

No dia em que é publicado em Portugal o primeiro volume do seu novo romance "1Q84", a pergunta que se coloca é simples e paradoxalmente complexa: vamos novamente descer ao poço?



Haruki Murakami, o intérprete de uma geração no fundo do poço
por Andreia Azevedo Soares, publicado no P3 a 7 de Novembro de 2011

O mais recente romance de Haruki Murakami chega às livrarias portuguesas esta segunda-feira, dia 7 de Novembro. Chama-se “1Q84” e vai ser publicado pela Casa das Letras em três volumes. Eterno candidato ao Nobel da Literatura, Murakami (Quioto, 1949) conta com uma legião de fãs de diferentes países e idades. Os jovens, contudo, constituem um grupo especial nessa comunidade global de leitores.

Desde o sucesso editorial da saga Harry Potter que não se vê no mercado editorial tamanha expectativa para o lançamento de um livro. No fim de Outubro, livrarias norte-americanas decidiram ficar abertas até à meia-noite para conseguir atender os clientes ansiosos por ler “1Q84”. Mas quais são exactamente os elementos narrativos que levam milhões de jovens a devorar os livros densos (e, muitas vezes, extensos) do escritor japonês?

Murakami é considerado um guru para muitos jovens japoneses. Os romances do escritor japonês são lidos com paixão tanto pela rapariga de Santiago de Compostela como pelo rapaz de Nova Iorque. Mesmo vivendo realidades sócio-culturais distintas, Murakami “fala-lhes ao ouvido” e “toca-lhes na corda sensível”, explica a tradutora Maria João Lourenço, numa crónica enviada ao P3.

Maria João salienta o facto de Murakami explorar nas narrativas temas que, sendo inerentes à condição humana, parecem vibrar com uma urgência própria no universo juvenil. Estamos a falar da solidão e do sexo. De vidas anódinas e experiências limite. Da ternura e da violência latente. Da alienação social e da memória histórica que persiste num limbo. Temas com que se debate hoje uma geração que resiste a classificações fáceis. Não é por acaso que a obra do autor nipónico é apontada como inspiração para filmes como “Lost in Translation”, de Sofia Coppola, e “Babel”, de Alejandro González Iñárritu.

Murakami tem a capacidade de mesclar a banalidade do quotidiano com episódios surreais. Nos romances do autor, encontramos uma personagem a cozer esparguete mas também vemos enguias a cair do céu. Andreia Filipa Silva, de 22 anos, gosta dessa “comunhão” entre “a realidade e o fantástico”. “[Murakami] é capaz de dar a conhecer a realidade japonesa ao mesmo tempo que escreve com um misticismo e simbologia, que deixa o leitor viajar pelo mundo do subconsciente”, explica Andreia, que estuda Cinema, Vídeo e Comunicação Multimédia.

Opinião semelhante tem João Craveiro, de 27 anos. Este estudante de doutoramento conta que Murakami tem o condão de fazer “fantasia sem criar um mundo fantástico irreal à parte”.

“Os mundos fantásticos dele guardam muito em comum com o mundo real, e isso faz com que se consiga desfrutar a narrativa sem ser assoberbado com nomes de galáxias, espécies, e coisas do género (memorizar dois ou três nomes de cidades japonesas ainda é tolerável)”, nota João Craveiro num e-mail enviado ao P3.
Outro aspecto importante é o modo como Murakami incorpora referências musicais nos textos. Antes de se tornar autor de culto (e, já agora, corredor de maratonas), Murakami era dono de um clube de jazz. Simão Miranda, estudante de 22 anos, confessa que o que o “atraiu inicialmente foram as referências culturais”, sobretudo ao jazz.

Após a leitura de “After Dark” e “Crónica de um Pássaro de Corda”, Simão conseguiu ver que os temas ali abordados “são bastante complexos”. Há, por exemplo, a questão da alienação e da ansiedade à qual, como recorda numa crónica enviada a P3, uma geração inteira é sensível. Uma geração que desceu ao poço e “espera encontrar a porta para o outro lado”.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uma leitura de Norwegian Wood...

Opinião do Tiago da equipa do blog MURAKAMI PT.

Parti para este livro com uma imagem de tal forma estereotipada que não fazia a mínima ideia do que ia encontrar nele. Frequentemente é dito que «Norwegian Wood» é o mais romântico dos livros de Haruki Murakami: a aproximar-se dos romances escritos para jovens com as hormonas aos saltos. O próprio Murakami afirmou que «Norwegian Wood» foi uma experiência isolada, a não tenciona voltar ao mesmo género. Por outro lado, a obra é o maior dos fenómenos de venda no Japão. E, um pouco por todo o mundo, são imensos os leitores que dizem que «Norwegian Wood» é o seu preferido. Com um começo algo estranho e anticlimático, como penso ser comum neste autor, debrucei-me sobre um mundo que pensava desconhecer.

Enganei-me. O Haruki Murakami pode dizer o que quiser. Esta não é uma tentativa isolada, e sim uma tentativa integrada entre os seus restantes livros. Não temos em «Norwegian Wood» uma mudança abrupta de estilo, nem de perto nem de longe. Temos a contínua voz deste contador de histórias. A começar em tudo, a acabar em tudo. Na personagem principal, igual a tantas outras de Murakami (talvez um pouco mais... jovem que o normal). Nas personagens secundárias que o rodeiam, mulheres com histórias tão diversas. No elementos western sempre presentes, músicas, livros, coca-colas. Nos tremendamente bem caracterizados momentos de solidão, e os de paz, e os de vida quotidiana que vai correndo sem que nada ocorra. Murakami retrata a vida de uma prespectiva melancólica.

Foi nesta obra que li um dos mais poderosos capítulos de Haruki Murakami, e isto depois de uns dez livros dele lidos. O capítulo 6 de «Norwegian Wood», este titânico capítulo 6, com 90 páginas (a contrastar com os restantes, que andam à volta das 20, 30 páginas). Um relato de um mundo completamente à parte, mas bem real. Neste preciso instante, há pessoas a viverem esta paz nas suas vidas, separadas de tudo o que nos parece essencial. A sensação com que fiquei quando acabei este capítulo ganhou à que me ocupou quando terminei o livro. Quando estas 90 páginas chegam ao seu término, ficamos com a sensação que está tudo dito, e chega até a nascer em nós um palpite de como aquilo tudo vai acabar. É assim mesmo em Murakami.

Nota negativa... Haruki Murakami excedeu-se com o erotismo desta vez. Principalmente na segunda metade da história. É de se revirar os olhos e suspirar de aborrecimento. Claro que, em tais doses, é propositada esta sensação que passa para o leitor. A personagem principal confronta-se com este mesmo problema: o excesso de sexo. O assunto é tratado de forma contínua, algo que está presente sempre com uma intensidade relativa. Acho que percebi onde o autor quis chegar, mas foi demais. A certa altura as cenas secavam por completo.

Notas positivas... quase tudo o resto! Não há muito mais que tenha a apontar como menos bom. A tradução de Alberto Gomes tem alguns elementos que me irritaram um pouco, como os «De verdade?» em vez de «A sério?», e o uso da 2ª pessoa do plural em algumas conversas entre amigos. Mas no geral o espírito de Haruki Murakami foi captado. Este autor tem um força incrível, é capaz de nos cravar dentro das histórias, e deixar-nos lá a marinar durante muito tempo. Não é o livro que entra na nossa vida, somos nós que entramos no livro. Isto é assustador, porque uma parte de nós fica lá, e continua a viver lá mesmo depois de termos acabado. Estou a falar usando o «nós», mas na verdade quero usar o «eu». Nem todos terão a mesma experiência. «Norwegian Wood» foi uma experiência de leitura triste, melancólica, Murakami ao seu nível - excelente.

domingo, 30 de outubro de 2011

Murakami - Um 'best-seller' obcecado



O estereótipo divide os escritores em dois grupos: os boémios, na linha de Hemingway e F. Scott Fitz-gerald; e os solitários, casos de J.D. Salinger ou Cormac McCarthy. Não vivendo em reclusão total como o autor de À Espera no Centeio, Haruki Murakami, 62 anos, encaixa-se melhor na segunda categoria, como assume em Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo: "Não considero que passar uma ou duas horas por dia a correr, sem trocar palavra com ninguém, e outras quatro ou cinco horas sozinho à secretária, seja aborrecido. Preferia mil vezes ler livros ou ouvir música do que estar na companhia de alguém." Mas os colaboradores garantem que o isolamento não o torna intratável. 

Maria João Lourenço, a tradutora de Murakami em Portugal, até lhe gaba o carácter comunicativo: "Lembro-me bem da primeira carta que me escreveu, muito simpática. Agora, contacto-o por e-mail. Nesta última tradução, respondeu a uma dúvida minha dizendo para fazermos como acharmos que fica melhor na nossa língua. É muito pouco burocrático." 

Fiel a uma rotina espartana, o romancista acorda antes das cinco da manhã, trabalha cinco horas, corre ou nada à tarde, lê e ouve música depois do jantar para relaxar, deita-se às dez da noite. "É o padrão que tenho seguido até hoje." E foi graças a esse padrão militar que conseguiu escrever uma trilogia de 1200 páginas em três anos: 1Q84, o best-seller que antes de o ser já o era. Nunca nenhum livro de Murakami gerou tanta expectativa. Num mês, 1Q84 vendeu um milhão de exemplares no Japão. Em França, foram publicadas 70 mil cópias e em menos de uma semana estava nas lojas uma nova edição. 

Terça-feira, o lançamento em Inglaterra obrigou a uma actividade anormal no mercado. "A última vez que fizemos isto foi com o Harry Potter", garantiu um livreiro ao site da BBC sobre o horário alargado até à meia-noite. Portugal terá de esperar pelo dia 7 de Novembro (de terça-feira a oito dias) para ler o primeiro volume de 1Q84. 

Excepção feita a leitores especiais. "É uma obra muito bem articulada, que levanta questões importantes. Um romance intrigante, com muitas linhas narrativas que se cruzam, talvez o mais actual dele", adianta Maria João Lourenço, que neste caso dividiu a tradução com Maria João da Rocha Afonso. 

Passado em Tóquio, 1Q84 (em japonês, nove pronuncia-se Q, remetendo-nos para 1984, de George Orwell) é mais uma aventura ao estilo de Murakami, com surrealismo q.b. e muitas interrogações. Tantas que a própria editora chegou a duvidar se a falta de esclarecimentos poderia ser interpretada como "preguiça". Segundo o The Guardian, o escritor respondeu com ironia: "Para ser bem-sucedido a escrever uma história, o autor fá-lo de uma maneira tão interessante que leva o leitor até ao último ponto final, o que poderá levar a que o classifiquem como preguiçoso." 

Preguiça é um defeito difícil de colar a um homem que corre todos os dias, que completou dezenas de maratonas, que participou em várias provas de triatlo, que fez uma ultramaratona de 100 km - esteve 11h42 a correr. 

No entanto, a vida de Murakami nem sempre foi tão regrada e saudável. Antes de acabar o curso de Teatro, abriu um clube de jazz em Tóquio: "Trabalhava de manhã até às tantas da noite, antes de cair para o lado de cansaço." E tudo piorou aos 27 anos. Dividiu a gestão do bar com o primeiro e o segundo romances, Hear the Wind Sing e Pinball, 1973 (nunca editados em Portugal). O escritor só entrava em acção de madrugada, depois de o empresário fechar as contas e as portas do clube. Ao terceiro livro, trespassou o bar: "Gostaria de ter liberdade para escrever durante dois anos", disse a Yoko, a mulher com quem está casado desde os 23 anos. "Se a coisa der para o torto, podemos abrir outro barzinho algures." 

Busca do Carneiro Selvagem foi um sucesso e o agora escritor profissional mudou os hábitos: deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer o número de livros vendidos. Em 1987, publicou Norwegian Wood, que vendeu 10 milhões de cópias e apresentou ao Japão a sua nova estrela literária. Crónica do Pássaro de Corda, Kafka à Beira-Mar e Sputnik, Meu Amor reforçaram o estatuto e levaram-no até às 42 línguas em que Murakami já foi traduzido até hoje. 

Crónico candidato ao Nobel, o japonês é uma receita de sucesso em todo o mundo. Só nos EUA já vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares. "Não faço ideia de quanto ganho por ano. É lamentável, mas o meu contabilista e a minha mulher é que tratam disso", explicou ao The Guardian. Em Portugal, Murakami vendeu mais de 160 mil exemplares. Kafka à Beira-Mar, com 13 edições e 40 mil exemplares, é o título mais procurado. E não lhe faltam seguidores portugueses, existindo até um blogue dedicado ao escritor (murakami-pt.blogspot.com) com 16 mil visitas anuais. 

Além de romancista, Murakami também é tradutor. Passou para japonês livros de F. Scott Fitzgerald, Truman Capote e toda a obra de Raymond Carver, seu amigo e mentor. Não tem filhos e vive entre o Japão, os Estados Unidos e o Havai. Esteja onde estiver, as corridas são sagradas: "Continuo a fazer exercício para melhorar a minha condição física, com o firme propósito de continuar a escrever livros." Quem disse que correr era um passatempo?


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Entrevista ao The Guardian [Parte 2/2]



Segunda metade da entrevista publicada no THE GUARDIAN, que podem ler neste link. A tradução desta segunda metade do artigo foi redigida por André Pereira, um seguidor do blog que exerce a actividade de tradutor, e que se disponibilizou a traduzir esta segunda parte.


A sua esposa, Yoko Takahashi, é a sua primeira leitora. O romance que nasceu durante um jogo de basebol chama-se Hear The Wind Sing (sem edição portuguesa) e foi galardoado com um novo prémio para escritores no Japão. Durante uns tempos, Murakami continuou a gerir o seu bar enquanto escrevia e isso era essencial para o seu progresso, dizia: "Tinha o meu clube de Jazz e tinha dinheiro suficiente, portanto não tinha de escrever para me sustentar e isso é muito importante." Quando o livro Norwegian Wood vendeu mais de três milhões de cópias no Japão, Murakami sentiu que já não havia necessidade de continuar no bar, se bem que por vezes imagine uma vida paralela onde se vê ainda naquele contexto. Acredita que não seria menos feliz.

"Se acredito em vidas alternativas? Hum... Sim. Mesmo assim, acho muito estranho. Por vezes interrogo-me por que razão sou escritor. Não existe uma razão certa para que me tenha tornado um. Algo aconteceu e, pronto, tornei-me escritor. E agora sou um bem-sucedido. Quando viajo para os EUA ou para a Europa, as pessoas conhecem-me e é muito estranho. Há alguns anos fui a Barcelona e dei uma sessão de autógrafos. Sabe, vieram 1000 pessoas. As raparigas deram-me beijos. Fiquei surpreso. O que me aconteceu?"

Ele escreve intuitivamente sem quaisquer planos. A inspiração para o seu último livro veio quando estava no meio do trânsito em Tóquio. O que teria acontecido caso tivesse evitado o engarrafamento e seguido por um desvio? Iria a sua vida mudar? "É o ponto inicial. Eu tenho um pressentimento que irá ser um bom livro. Iria ser bastante ambicioso. Era tudo o que sabia. Escrevi o romance Kafka à Beira-Mar, talvez há cinco ou seis anos, e esperei pela chegada do novo livro; até que chegou. Chegou. Soube que iria ser um enorme projecto. Era um pressentimento."

Um livro como o 1Q84 pode, em simultâneo, assumir características elípticas graças ao brilhantismo de Murakami, mas também deixar o leitor algo insatisfeito. A artificialidade presente no livro pode ser desculpada pelo autor como se fosse um comentário à própria artificialidade e, por vezes, o tom vago pode ser algo negativo. "Desde aquela vez que viu duas luas no céu e uma crisálida a materializar-se na cama do seu pai no sanatório, nada surpreendia Tengo por aí além."

Tal como acontecia nos seus livros mais antigos, algumas das cenas mais ternas são superficiais ao enredo principal. Em Norwegian Wood, o livro que Murakami escreveu da forma mais convencional possível a fim de ser um sucesso comercial, focava-se no pai moribundo da personagem principal e da sua namorada. Já em 1Q84, são as cenas entre Tengo, o parceiro romântico de Aomame, e o seu pai moribundo que temos mais dificuldades em apreciar. A maioria das personagens de Murakami tiveram infâncias infelizes e não é uma coincidência, admite. Não aconteceu nada de drástico durante a sua infância. Ainda assim, diz, "senti-me um pouco maltratado. Talvez se devesse ao facto de os meus pais esperarem que o filho fosse de uma maneira, mas acabando por ser de outra." Ri-se. "Esperavam que tivesse boas notas na escola, mas não tinha. Não gostava de estudar durante muito tempo. Apenas queria fazer o que me apetecia. Sou muito consistente. Esperavam que fosse para uma boa escola e arranjasse um emprego na Mitsubishi ou algo do género, mas também não o fiz. Queria ser independente. Então abri um clube de jazz e casei enquanto ainda andava na universidade. Ficaram um pouco desapontados com isso."

E de que forma é que o demonstraram?

"Apenas estavam desiludidos comigo. É duro para uma criança lidar com essa desilusão. Eles são boas pessoas, mas mesmo assim fiquei magoado. Ainda me recordo dessa sensação. Queria ser um bom filho para os meus pais, mas não o consegui. Já eu não tenho filhos. Por vezes interrogo-me sobre o que aconteceria se tivesse tido filhos, mas não o consigo imaginar. Não fui muito feliz enquanto criança, portanto não tenho a certeza se seria feliz como pai. Não faço a mínima ideia."

Então, como é que arranjou a confiança para fazer o que queria? "Confiança enquanto adolescente? Porque sabia do que gostava. Gostava de ler, ouvir música e de gatos, estas três coisas. Mesmo sendo apenas uma criança, era feliz porque sabia do que gostava e essas três coisas mantiveram-se constantes desde a minha infância. Ainda hoje sei do que gosto. E isso é confiança. Se não sabes do que gostas, estás perdido."

A opinião de Murakami no Japão é requisitada para quase todos os assuntos uma vez que é um dos intelectuais mais reconhecidos do seu país. Por ser tão tímido e modesto, não aprecia aparições públicas, mas dirige-se a todas as pessoas através dos seus livros.

 Logo após o atentado com gás Sarin em 1995 numa estação de metro em Tóquio, escreveu Underground - a Mentalidade de Tóquio e a Mentalidade Japonesa, um conjunto de ensaios jornalísticos sobre o evento. Murakami sente-se na obrigação de representar o seu país como escritor japonês e aceita receber publicidade no estrangeiro, enquanto a recusa no seu próprio país. Apesar de ter traduzido vários romances ocidentais para a língua japonesa, incluindo as obras do seu autor favorito, Raymond Chandler, admite que traduzir a partir da própria língua para outro idioma já é mais difícil. Nunca traduziria os seus próprios livros, no entanto discute algumas dúvidas relacionadas com determinadas palavras com os seus tradutores.

Murakami encontrava-se em Honolulu no início deste ano quando o terramoto e tsunami se abateram sobre o Japão. Mudou o país, diz. "As pessoas perderam a sua confiança. Esforçámos-mos imenso após o final da guerra. Durante 60 anos, quanto mais ricos éramos, mais felizes nos tornávamos. Mas no final, não éramos felizes, por mais que trabalhássemos. E surgiu o terramoto, muitas pessoas tiveram de ser evacuadas, tiveram de abandonar as suas casas e cidades. Uma tragédia. E estávamos orgulhosos da nossa tecnologia, mas a nossa central nuclear acabou se tornar no nosso pesadelo. O que fez as pessoas começaram a pensar que tínhamos de mudar drasticamente de estilo de vida. Creio que foi um grande ponto de viragem para o Japão."

Compara o acontecimento com o atentado de 11 de Setembro, dizendo que também alterou a História do mundo. De um ponto de vista de um escritor, é um "evento milagroso", demasiado improvável para ser real. "Quando vejo aqueles vídeos dos dois aviões a despenharem-se contra as torres, parece-me um milagre. Não é politicamente correcto dizer que é bonito, mas tenho de admitir que existe uma certa beleza no acontecimento. É horrível, é uma tragédia, mas mesmo assim existe beleza. Parece demasiado perfeito. Nem posso acreditar que, de facto, aconteceu. Dou por mim a questionar-me que se os aviões não se tivessem despenhado contra as torres, o mundo seria tão diferente do que é agora."

As mudanças que estão afectar os japoneses devem-se em parte, diz Murakami, ao facto de terem perdido muito e de terem de questionar o que realmente interessa. As suas prioridades são simples, continua. Por exemplo, não faz ideia de quanto dinheiro tem. "Sabe, se formos rico, a melhor coisa é o facto de não termos de pensar no dinheiro. A melhor coisa que podemos comprar com ele é a liberdade e tempo. Não sei quanto ganho por ano. Não faço ideia. Também não sei quanto pago de impostos e nem quero pensar nisso."

Pausa durante algum momento.

“É lamentável, o meu contabilista e a minha mulher é que tratam disso. Não me deixam saber de nada. Apenas trabalho."

Ele deve mesmo confiar na sua mulher! "Estamos casados há 40 anos ou isso. Ela ainda é minha amiga. Conversamos, conversamos sempre. Ajuda-me imenso. Aconselha-me sobre os meus livros. Respeito a sua opinião. Por vezes discutimos.”

A sua opinião, por vezes, é dura. "Sim, por vezes é."

Talvez necessite disso.

"Talvez. Se o meu editor fizesse o mesmo, iria-me chatear." Murakami encolhe os ombros. "Posso deixar o meu editor, mas não posso deixar a minha mulher."

O seu pai faleceu há dois anos, mas a sua mãe ainda está viva. Murakami espera que os seus pais tenham ficado felizes com o seu sucesso enquanto escritor, mas no entanto permanece a dúvida. Murakami tem as suas distracções: É membro de um clube de corrida no Havai e é, de todos, o mais velho, afirma. Corre tanto quanto escreve, como quem diz, todos os dias. A consistência é tudo. "Gosto de ler livros. Gosto de ouvir música e de comprar álbuns. E gosto de gatos. De momento não tenho nenhum gato, mas se estiver a passear e vir um gato, então fico feliz."