quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Realidade A e Realidade B [Crónica de Haruki Murakami]


Há um mês foi publicada no The New York Times uma crónica de Haruki Murakami, traduzida para o inglês por Jay Rubin, e enquadrada na Agenda Global 2011. O texto é agora traduzido pelo MURAKAMI PT, com as suas imperfeições naturais, mas com a equipa do blog segura de que fez a sua melhor tentativa possível ao traduzir as palavras. Esperemos que fiquem bem com esta mensagem do autor japonês, que serve perfeitamente de mensagem de ano novo, para que todos entremos em 2011 com optimismo e determinação.



Quais foram os acontecimentos que demarcaram o espírito do século XXI do do XX? De uma perspectiva global, foram, primeiro que tudo, a destruição do Muro de Berlim e o consequente rápido fim da Guerra Fria; e em segundo, a destruição das torres do World Trade Center no 11 de Setembro de 2001. O primeiro acto de destruição foi cheio de esperanças brilhantes, enquanto que o segundo foi uma devastadora tragédia. A convicção global no primeiro acontecimento de que “o mundo será melhor do que nunca” foi totalmente deitada por terra pelo desastre do 11 de Setembro.

Estes dois actos de destruição, que ocorreram nos diferentes lados do virar do milénio, com contextos tão diferentes em cada um deles, parecem ter-se juntado num único par que transformou fortemente a nossa mentalidade.

Ao longo dos últimos 30 anos, escrevi ficção em variadas formas, desde contos a romances longos. A história é desde sempre um dos mais fundamentais conceitos humanos. Apesar de cada história ser única, funciona como parte integrante de algo que pode ser partilhado e trocado com os outros. Essa é uma das coisas que dá às histórias o seu significado. As histórias mudam de forma livre à medida que vão inspirando o ar de cada nova era. Tendo como princípio serem mediadoras de transmissão cultural, as histórias variam drasticamente quanto ao modo de apresentação que usam. Como estilistas da moda, nós escritores vestimos histórias, à medida que elas mudam de forma no dia-a-dia, em palavras vestidas à sua medida.

Visto de uma perspectiva de tal forma profissional, parece que a interface entre nós e as histórias que encontramos enfrentam uma mudança maior do que nunca no período anterior ao mundo começar a traçar o princípio de um milénio. Se esta mudança é positiva ou menos bem aceite, isso não estou em posição de julgar. Tudo o que posso dizer é que provavelmente nunca voltaremos ao ponto de onde começámos.

Falando por mim, uma das razões por que sinto isto tão fortemente é o facto da ficção que escrevo estar ela mesma em perceptível transformação. As histórias dentro de mim vão mudando de forma à medida que inalam novas atmosferas. Eu consigo sentir claramente esse movimento a acontecer dentro do meu corpo. Além disso, ao mesmo tempo, existe uma mudança substancial na maneira como os leitores recebem a ficção que escrevo.

Tem havido uma mudança especialmente particular na postura dos leitores europeus e americanos. Até agora, os meus livros eram vistos em termos do século XX, entrando nas suas mentalidades através de portas denominadas como “post-modernismo”, ou “realismo mágico”, ou “orientalismo”; mas desde o momento em que as pessoas deram as boas-vindas ao novo século, gradualmente começaram a remover do seu dicionário mental os “ismos” e a aceitar os mundos das minhas histórias mais perto daquilo que realmente são. Tenho uma forte percepção desta mudança sempre que visito a Europa e a América. Parece-me que as pessoas estão a aceitar as minhas histórias tal como são – caóticas muitas das vezes, perdendo a lógica em variados momentos, e nas quais a composição da realidade é rearranjada. Ao invés de analisarem o caos de que são compostas as minhas histórias, parecem ter começado a conceber um novo interesse na tarefa de descobrir como se encaixarem nelas.

Em contraste, a maioria dos leitores em países asiáticos nunca sentiram necessidade da catalogação de teorias literárias quando liam as minhas obras. A maioria dos asiáticos que decidiram ler os meus livros, aparentemente aceitaram as histórias que escrevi como relativamente “naturais” desse ponto de vista exterior. Primeiro veio a aceitação, e depois (se necessário) vem a análise. Na maioria dos casos no ocidente, apesar de tudo, com alguma variação, a análise lógica chegou antes da aceitação. Tais diferenças entre o Ocidente e o Oriente, no entanto, parecem estar a desaparecer no decorrer dos anos, devido à influência que vão dando um ao outro.

Se eu tivesse de nomear um separador no processo pelo qual o mundo tem estado a passar nos últimos anos, chamá-lo-ia de “realinhamento”. Depois do fim da Guerra Fria começou um realinhamento a nível político e económico. Pouco há para ser dito acerca do realinhamento da área das tecnologias de informação, com o incrível e global estabelecimento de novos sistemas. Vivendo no centro destes processos, obviamente, seria impossível à literatura tomar uma posição em tal realinhamento e impedir tal mudança no sistema.

Uma das dificuldade que surgem neste processo de realinhamento é a perda – ainda que apenas temporária – de eixos coordenados através dos quais se formam normas de evolução. Estes eixos estiveram cá até agora, funcionando como bases sustentáveis na medição do valor das coisas. Estavam sentados na ponta da mesa como os “chefes de família” dos valores, decidindo o que era aceitável e o que não era. Agora acordamos e descobrimos que não apenas o chefe da mesa como a própria mesa desapareceu. À nossa volta, parece que as coisas foram – ou estão a ser – engolidas pelo caos.

Quando eu oiço a palavra “caos”, automaticamente me lembro das imagens do 11 de Setembro – aquelas cenas chocantes que foram mostradas um milhão de vezes na televisão: os dois aviões chocando contra as paredes de vidro das Torres Gémeas, as torres desabando sem avisar, imagens que continuam a ser inacreditáveis mesmo depois de um milhão e uma visualizações. O enredo que foi sucedido com miraculosa perfeição – uma perfeição que atingiu um nível próximo do surreal. Se o puder dizer sem ter medo de ser mal entendido, as cenas até pareciam ser qualquer coisa feita a computador para um filme de Hollywood.

Frequentemente imaginamos como teria sido se o 11 de Setembro nunca tivesse ocorrido – ou pelo menos se o plano não tivesse sucedido de forma tão perfeita. Se assim fosse, o mundo teria sido muito diferente do que é hoje. A América podia ter um presidente diferente (possibilidade muito grande), e a guerra no Iraque e no Afeganistão poderiam nunca ter ocorrido (possibilidade ainda maior).

Vamos chamar ao mundo que verdadeiramente temos agora a Realidade A, e ao mundo que poderíamos ter tido se o 11 de Setembro nunca tivesse acontecido a Realidade B. Não podemos deixar de reparar que o mundo da Realidade B parece mais realístico e racional do que o mundo da Realidade A. Para pôr o caso em termos diferentes, estamos a viver num mundo que tem um nível ainda menor de realidade do que o mundo irreal. O que podemos chamar a isto senão “caos”?

Que tipo de significado pode ter a ficção numa época como esta? Que propósitos pode ela servir? Numa altura em que a realidade é insuficientemente real, quanta realidade pode uma história ficcional ter?

Sem dúvida, este é o problema que nós escritores agora enfrentamos, a questão que nos foi dada. No momento em que as nossas mentes atravessaram o princípio do novo século, também nós atravessámos o início de uma nova realidade. Não tivemos escolha senão em atravessar, e, como podemos confirmar, as nossas histórias são obrigadas a mudar a sua estrutura. Os romances e as histórias que escrevemos tornar-se-ão sem dúvida cada vez mais diferentes em carácter e sentimento das que existiam antes, tal como a ficção do século XX é nítida e claramente diferenciada da do século XIX.

O objectivo principal de uma história não é julgar o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau. Mais importante para nós é determinar se, dentro de nós, os elementos variáveis e os valores tradicionais estão a mover-se em frente em harmonia uns com os outros, para determinar se as nossas histórias individuais e as histórias comuns aos outros estão juntas neste caminho.

Por outras palavras, o papel de uma história é manter o carácter de ponte espiritual que foi construída entre o passado e o futuro. Novas normas e valores emergem naturalmente deste processo. Para isso acontecer, temos primeiro de respirar profundamente o ar da realidade, o ar das coisas tal como elas são, e temos de aceitar sem preconceito a maneira como as histórias estão a mudar dentro de nós. Temos de cunhar novas palavras em consonância com o respirar dessa mudança.

Nesse sentido, ao mesmo tempo que a ficção (histórias) ultrapassa um severo teste, surge uma oportunidade sem precedentes. Claro que à ficção sempre foi delegada uma responsabilidade e questões com que lidar em cada época, mas sem dúvida que a responsabilidade e as questões são especialmente importantes agora. As histórias têm a função que só elas podem tomar, e que é “tornar tudo numa história”. Transformar as coisas e os acontecimentos à nossa volta na metáfora do formato das histórias, e sugerir a verdadeira natureza das situações no dinamismo dessa substituição: essa é a função mais importante da ficção.

No meu último romance, 1Q84, eu mostro não o futuro próximo como George Orwell, mas o contrário – o passado próximo – de 1984. E se tivesse havido um 1984 diferente, não o 1984 original que conhecemos, mas outro, um 1984 transformado? E se fôssemos subitamente atirados para esse mundo? Isso seria, claro, um passo na direcção de uma nova realidade.
No intervalo entre a Realidade A e a Realidade B, na inversão das realidades, quando longe podemos nós preservar os nossos valores adquiridos e, ao mesmo tempo, a que novos valores poderíamos nós aceitar e seguir com eles? Este é um dos temas do trabalho. Passei três anos a escrever esta história, tempo através do qual passei este mundo hipotético por mim próprio enquanto simulação. O caos ainda lá está – em medidas estrondosas.

Mas depois de uma boa dose de tentativa e erro, tenho a forte sensação que finalmente estou a conseguir metê-lo nos termos de uma história. Talvez a solução comece por lentamente aceitar o caos não como algo que “Não devia estar aqui”, rejeitado fundamentalmente logo de princípio, mas como algo que “é realmente um facto”.

Talvez seja demasiado optimístico. Mas como contador de histórias, como um esperança piloto da mente e do espírito, não consigo deixar de pensar desta forma – que também o mundo, após uma boa quantidade de tentativa e erro, chegará a uma nova convicção que está a chegar, que o mundo irá descobrir algumas pistas que sugerem a solução, porque, finalmente, tanto o mundo como a história já passaram pelo começo de muitos séculos e por muitas metas para sobreviver até ao dia presente.


Data: November 29, 2010
Fonte: The New York Times
Por: Haruki Murakami
Em: http://www.nytimes.com/2010/12/02/opinion/global/02iht-GA06-Murakami.html?pagewanted=1&_r=2

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O 5º Carneiro!

Eis que a Casa das Letras anunciou na sua página do Facebook que chegou às lojas mais uma reedição do livro «Em Busca do Carneiro Selvagem», de Haruki Murakami. A obra, na sua versão portuguesa, chega esta forma à sua 5ª edição.

De notar que é a primeira edição depois de Julho de 2007. O livro foi lançado em Portugal em Abril desse ano, e no espaço de três meses deu lugar a quatro edições - desde então para cá não tinha esgotado os seus exemplares. Tudo leva a indicar que isso aconteceu, e «Em Busca do Carneiro Selvagem» volta assim a marcar lugar com mais força nas lojas do país.

Um bom presente de Natal, assegura a equipa do blog. O livro é o terceiro escrito pelo autor japonês, na sequência da trilogia do Rato que o lançou enquanto escritor. No entanto, e devido ao impedimento de publicação das duas primeiras obras, «Em Busca do Carneiro Selvagem» acaba mesmo por ser a obra mais antiga de Murakami a que os leitores têm acesso com facilidade, e em português.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Crítica a «Underground - a Mentalidade de Tóquio e a Mentalidade Japonesa» (Tiago)

Um dos motivos que fazem de Haruki Murakami o meu autor preferido é o facto de partir para um livro seu sempre com a certeza de que uma maneira ou de outra me vai surpreender. Isso aconteceu com os sete trabalhos de ficção que li até agora dele, e também com o de não-ficção “Auto-Retrato do Escritor enquanto corredor de fundo”. Mesmo o seu primeiro, “Hear The Wind Sing”, que após ter terminado fiquei com uma sensação de que faltaria qualquer coisa, me tinha surpreendido pela atmosfera para onde me tinha puxado. Acontece que “Underground – O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa” é uma obra composta de entrevistas feitas pelo autor às vítimas de um ataque de gás sarin no metropolitano da capital japonesa, e na segunda metade aos membros/ex-membros da seita que provocou o atentado.

Primeiro que tudo, e antes de iniciar a minha opinião, quero deixar uma nota muito positiva à editora Tinta-da-China, que edita este livro em Portugal. É a primeira obra de Murakami que leio fora do domínio da Casa das Letras, e adorei o conceito gráfico desta edição.

A primeira metade ainda nos envolve por algum tempo. Não digo que a segunda não deixe de ser agradável de ler, mas a primeira tem ainda um toque muito particular de Murakami, nomeadamente em dois capítulos seguidos que se encontram entre as páginas 121 à 140. Estas dezanove páginas são de todo o livro as mais marcantes; atingem um elevado nível de escrita e conferem-lhe uma grande emotividade. O segundo desses dois capítulos, particularmente, e apesar de não-ficção, está carregado das palavras e do génio do escritor japonês. São páginas de arrepiar e, no fim, aplaudir, ainda que só vamos a um terço do livro e falte ainda muito para terminar. Mas o que senti é que, se o livro terminasse ali, já não ficávamos mal servidos de todo. Foram talvez 20 das melhores páginas que li neste ano de 2010.

Que pena é, no entanto, que esse expoente não se tenha esticado mais. O livro é um retrato de pessoas, que falam de si próprias e das suas vidas. E sim, é espantoso o trabalho jornalístico feito por Murakami, é espantoso o painel de vidas a que de repente temos acesso, é interessante ver as dezenas de perspectivas diferentes acerca de um único acontecimento. E em relação à segunda metade, o interesse e a curiosidade mantêm-se em descobrir que, afinal, os membros da seita Aum são afinal pessoas normais, que podiam ser qualquer um de nós. Sem qualquer ligação ao atentado, muitos não queriam acreditar sequer que tinha sido a sua religião a provocar tal monstruosidade.

É, pois, ponto assente: o livro está original e muito bem concebido. Para um ensaio de não-ficção, composto por dezenas de entrevistas, e um retrato dos acontecimentos passados no dia 20 de Março de 1995 em Tóquio, está aqui uma obra de grande valor – e à qual tenho a certeza que o autor dispensou todos os seus esforços e profissionalismo.

Não posso, no entanto, dizer que fiquei totalmente satisfeito com esta leitura. Porque não fiquei. Com os autores muito bons, há sempre o risco de haver um livro que esteja um pouco abaixo daquilo que nos habituou, e depois desilude-nos. Acho muito boa a capacidade que ele tem de se dividir entre os estilos narrativos e os de investigação e ensaio, mas a verdade é que “Underground” não me deixou agarrado, por exemplo. Enquanto um todo, é interessante, mas ao longo da leitura foram poucos os momentos em que senti “não posso parar, vamos lá ver como é que isto continua”. É um estudo, eu diria quase um retrato social. Fica-se a aprender muito sobre o Japão e o modo de vida das pessoas. E sim, isso foi muito bom e saio mais rico desta leitura. Mas faltou um qualquer tempero que esperaria vindo de Murakami. Excepto naquelas vinte páginas. Aquelas vinte páginas…

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mais sobre a curta "O Segundo Assalto à Padaria"


Embora na actualidades internacional estejam a dominar os artigos sobre o filme Norwegian Wood, a estrear nas salas de cinema japonesas a11 de Dezembro, e ainda sem data marcada para Portugal - existem também notícias sobre a curta-metragem que anda a ser exibida em festivais norte-americanos, baseada no conto de Haruki Murakami "O Segundo Assalto à Padaria".


Deixo-vos com algumas imagens que vão sendo divulgadas na internet, assim como um excerto de trinta segundos disponível para visualização. Em inglês, sem legendas.


TheSecondBakeryAttack from Morelia Film Fest on Vimeo.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

[Crónicas da Tradutora] - 1Q84

O MURAKAMI PT inicia a partir de hoje uma parceria regular com a tradutora portuguesa do autor Haruki Murakami - Maria João Lourenço - que puderam conhecer melhor a partir da entrevista exclusiva que publicámos no blog ao longo das últimas semanas. Pelo nosso lado, achámos a conversa tão interessante, ficou tanta coisa por dizer e divagar, que nos custava um pouco que este contacto tão produtivo com a tradutora se ficasse por aqui. Decidimos, pois, apresentar uma proposta à Maria João, que foi atendida com entusiasmo também pela sua parte: no primeiro dia de cada mês será publicada no blog uma crónica escrita pela tradutora, com o seu ponto de vista, sobre um determinado subtema englobado no grande tema que é Murakami. De uma coisa estamos certos: com a multiplicidade de obras e discussões existentes, dificilmente faltará assunto; e: a opinião e a presença de Maria João Lourenço, a tradutora das suas obras para a nossa língua, será uma mais valia a todos os leitores portugueses já agarrados pelas narrativas do japonês. As crónicas da tradutora começam já este mês de Dezembro de 2010, com uma crónica dedicada a «1Q84», o mais recente livro de Murakami publicado no Japão. Será traduzido para português durante os próximos meses, e sairá ao mesmo tempo cá que a tradução inglesa na América. Maria João Lourenço deixa-nos com uma boa prespectiva do que podemos esperar deste romance...
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1Q84. O primeiro capítulo do Livro 1 (Abril a Junho) tem nome de mulher. Aomame. Traduzido à letra,«ervilha verde» (Ao-mame), se querem mesmo saber os mais curiosos. «Se eu não tivesse vindo ao mundo com este nome», interrogava-se ela muitas vezes, «quem sabe?, talvez a minha vida tivesse conhecido um rumo diferente...». Não é caso para terem pena, que ainda a procissão vai no adro, e nós, leitores privilegiados e fiéis de Murakami, seguimos viagem num táxi na companhia desta ninja moderna, nascida em 1954, que identifica – aos primeiros acordes – a Sinfonietta de Janáček, difundida por uma estação de música de clássica. O cenário tem o seu quê de estranho, mas, acreditem, ainda viram muito pouco, e não vou sequer fazer a descrição do condutor do táxi, uma vez que no segundo capítulo, chegados à página 26 da edição alemã (belo exemplar da Dumont, verde sobre prata, com MURAKAMI estampado a toda a largura da lombada), travamos conhecimento com Tengo, personagem masculina.

Prende-se com o tempo, a primeira recordação do jovem. Lembra-se de ver a mãe a dar o peito a um homem, que não era o pai. Intuitivamente, soube que era ele que estava deitado no berço, bebé de meses. Pensa em si na terceirapesso. Já adulto, Tengo conta com um parceiro que trabalha no mundo editorial, de seu nome Komatsu,e que tenta convencê-lo a editar um romance escrito por outra pessoa (A Boneca Insuflável), com o qual poderia candidatar-se ao mais importante prémio literário japonês. São ambos jovens e um tanto inconscientes, percebe-se, apesar de terem consciência política e de terem tomado parte no movimento estudantil quando estudavam literatura na Universidade de Tóquio (protestaram contra os acordos de segurança entre o Japão e os Estados Unidos). Tal como acontecia em Kafka à Beira-Mar, também no romance 1Q84 encontramos uma estrutura paralela: a um capítulo centrado na figura de Aomame, sucede outro encabeçado por Tengo. A par da estrutura, o mundo paralelo é outra certeza. Se o 1984 de George Orwell é para aqui chamado, mais adiante se lerá.

Para começar, temos uma história de amor e morte, marcada pela violência, num mundo em que existem seitas religiosas, como aquela que marcou a história recente do Japão e que Murakami retratou em Underground – o Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa (Tinta-da-China) e, algures, o Povo Pequeno. Em última análise, um romance genuíno, com a assinatura de um escritor japonês que escreve sobre o seu país sem deixar de descrever a espécie humana. Mas estamos a adiantar-nos; mais vale esperar pela tradução inglesa a cargo de Jay Rubyn (ocupou-se dos dois primeiros livros) e Philip Gabriel (ficou com o Livro Três). O taxista que transporta Aomame, logo que o romance arranca, bem avisa: «Não se deixem enganar pelas aparências. A realidade é só uma.» Os leitores portugueses terão de esperar até meados do ano que vem para lerem a tradução. Pela minha parte, mal posso esperar para começar a traduzir.

Maria João Lourenço


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

[Pt 4/4] Entrevista Exclusiva à Tradutora!


Final

Após o desligar do gravador, a sensação que paira no ar é a de um sonho. Pelo menos da parte da equipa do blog. Olhamos para o relógio e confirmamos que a conversa durara tão mais do que imaginaramos - uma hora e quarenta e cinco minutos. Cada um acaba a sua bebida, e pedimos autorização para fotografar alguns dos livros que Maria João Lourenço trouxera para vermos. Tocamos num autógrafo de Haruki Murakami, e, mesmo que fosse só por isso, aquele dia já tinha sido diferente. Lá fora, um Campo Pequeno inundado de sol, numa temperatura amena de princípio de Outono. Tiramos as últimas fotografias, desta vez à tradutora. Despedimo-nos sorridentes - foi uma manhã bem passada e temos de repetir numa próxima vez. Ao entrar no metro no caminho de volta para casa, olhamos um para o outro (a Marta para o Tiago, o Tiago para a Marta), e fica a pergunta no ar - se terá sido realidade, ou se caímos num romance do japonês. Tendemos para a segunda hipótese...


MPT - Há pouco estávamos a falar de catalogarem Murakami como pertencente de uma cultura pop. Acha que isso é alguma espécie de obstáculo ao Prémio Nobel da Literatura? É por isso que ele depois acaba por não ganhar?

MJL – Sinceramente, eu acho que o rótulo não corresponde à verdade. Mas acho que pode ser um obstáculo, sim (risos). Na mente dos senhores que escolhem o Prémio Nobel. O Prémio Nobel da Literatura e o Prémio da Paz são sempre os Prémios Nobel mais difíceis de nós conseguirmos perceber a lógica deles. O senhor da Medicina fez isto, o senhor do ramo da Química … Estes são mais subjectivos, e por vezes esta subjectividade escapa-nos um pouco. Nos últimos anos, houve alguns que eu nunca tinha lido e continuo sem ler, muito embora perceba a notoriedade e a importância da obra deles, é evidente. Mas reconheço que são nomes desconhecidos, que continuam a ser-me desconhecidos. O Orhan Pamuk, por exemplo, para mim, foi um bom Prémio Nobel. Dos últimos anos talvez tenha sido o mais significativo, porque é um homem que escreve bem e que tem tomadas de posição importantes no mundo de hoje em dia, ou seja, tem uma voz, defende as suas opiniões, tem tomado posições corajosas. E acho que isso é importante. Importa premiar um autor que não tenha 80 ou 90 anos ou que esteja a caminho da reforma. Dizem que Murakami é o eterno candidato. Há muito tempo que o Oriente não recebe o Nobel. Não estou a ver mais nenhum oriental a quem o prémio possa ser dado, francamente. Se essa for a lógica! A lógica não devia ser essa – devia ser: este homem tem uma obra, e é importante, e vamos premiá-lo. Não devia ser tão matemático assim. Agora que ele tem construído uma obra muito interessante, e tem um discurso interessante igualmente sobre uma série de questões… é um homem que talvez seja um bocadinho da retaguarda, talvez seja um homem da cultura cauteloso, talvez não apareça tanto, talvez não faça defesa das posições políticas. Talvez não percorra as “capelinhas certas”. Estes dois prémios que ele recebeu em Espanha, por exemplo, dizem bem a importância que ele tem a nível de certas culturas. Quer dizer, estamos a falar de um escritor frequentemente entrevistado e citado nas revistas e nos suplementos literários espanhóis. Portanto, ele é reconhecido em certos meios. Aqui em Portugal é que é um bocado esquecido, como digo… no princípio não era tanto assim, eu tenho saudades que pessoas como, por exemplo… o João Céu e Silva, do DN, escreve sempre muito sobre ele. Mas lembro-me que no início a Bárbara Reis e o Rui Tavares escreveram, e com propriedade, artigos longos sobre ele e sobre a sua obra. O José Mário Silva também chegou a escrever sobre ele. E agora tenho pena que isso não aconteça nas páginas dos jornais em que se escreve sobre livros. Artigos em que se possa falar um bocadinho da obra dele, porque o que sai, sai em colunas de texto muito pequeninas, que não dá para aprofundar nada. Eu lembro-me perfeitamente de ter lido textos bons onde se ia ao fundo da obra dele. Porque é triste ver sempre um autor quando sai um livro dele – um autor da ordem do Murakami – ver a obra dele reduzida a quatro parágrafos… onde dois parágrafos são a falar da obra anterior! “Fez estes livros assim, assim, assim… e neste livro…”, e depois vem um resumo da obra. Quer dizer, o que eu quero é que me digam o que é que está ali, quero ter uma análise interessante sobre aquela obra. E é isso que eu acho que falta à crítica portuguesa, a capacidade de pegar num livro e de o interpretar – à luz do pensamento de quem escreve! Duas estrelas, uma estrela, não presta, não é bom, não gosto… mas importa analisá-lo! É um autor um bocado esquecido em Portugal, e não entendo isso, francamente.

MPT – Acha que as vendas em Portugal não correspondem ao que se observa noutros países, proporcionalmente?

MJL – Não, correspondem! Um autor muito vendido em Portugal, sim! Dos autores mais vendidos da Casa das Letras. E é tanto mais espantoso quanto não é muito falado na imprensa!

MPT – Então, especificamente no caso português, o que é que as pessoas procuram em Murakami? O que as leva a comprar os livros dele?

MJL – É um autor que vende, quase uma coisa de boca a boca. Eu acho que Murakami - ainda há pouco falei um bocadinho nisso - consegue meter-se na pele das suas personagens, ele consegue descrever os estados de ansiedade do homem moderno. E fala de uma forma simples – sem ser simplista. Há livros complexos. Mas é engraçado, eu acho os livros complexos – a “Crónica do Pássaro de Corda” eu acho um livro completo – mas eu acho que mesmo os livros mais difíceis dele conseguem ser lidos por uma pessoa que não seja muito culta. Acho que uma pessoa que não entenda muito do que ele está a escrever ou a dizer consegue ler o livro na mesma. Consegue chegar ao fim. Quanto muito pode não perceber que ele está a falar de Freud ou de Jung, ou do que quer que seja, mas passa à frente! Porque a forma como ele passa a mensagem é importante. É a tal coisa, porque ele escreve com humor, muito embora o humor esteja disseminado! Ele tem atenção a isso, e fá-lo num bom ritmo. Aí está: este livro do Jay Rubin chama-se “Haruki Murakami and the Music of Words”. Ele tem atenção à importância das palavras, em japonês, mas os tradutores também têm atenção a isso. Eu também tenho um certo cuidado quando traduzo… eu acho que as pessoas se sentem compreendidas ao ler os romances dele. Sentem-se representadas ali. E depois a escrita… flui. Tem o tal ritmo… ele diz que “A ficção é uma coisa viva”. “A living thing”, eu traduzo o Jay Rubin. É verdade. Porque ele escreve para – ele diz muitas vezes isso – escreve para se conhecer a si próprio. Mas nesse processo de auto-conhecimento ele vai permitindo que os leitores se vão conhecendo a si próprios também. Eu acho que nos diálogos muito vivos. A forma muito engraçado, às vezes. Sempre sem perder o humor!

MPT – Há intenção de publicar esse livro do Jay Rubin – “Haruki Murakami and the Music of Words” - em Portugal?

MJL – Sim, a Casa das Letras gostava de traduzir este livro. Já andamos com este projecto há muito tempo. Como não será um projecto para muitos exemplares, temos estado a adiar. Gostávamos inclusivamente de o actualizar. De conversar com o Jay Rubin sobre o projecto, já se falou nisso.

MPT - De todos os livros que já traduziu, qual é que considera ser o seu preferido? E porquê?

MJL – Eu agora estou esperançada que o “1Q84” seja o meu livro preferido, não é? Murakami costuma dizer que Dostoiévski – que é um dos preferidos… não diz que é o preferido, mas ele às vezes descai-se e diz que é o autor preferido dele - que os melhores livros do Dostóievski vieram depois dos sessenta anos. E ele quando diz isto, é um paralelismo pouco subtil que se estabelece. Ele deposita grande fé neste livro. Só agora comecei a ler, não posso dizer “Ah, este é um começo prometedor”. Tem música! Música sinfónica moderna, logo… “Em Busca do Carneiro Selvagem” talvez seja o meu preferido. “Kafka à Beira Mar” é o livro que me parece mais surpreendente… e percebo porque é que as pessoas gostam mais dele, ou seja, não é difícil perceber porquê! E tenho que confessar que os contos, concretamente este conjunto de narrativas curtas do “O Elefante Evapora-se” é muito conseguido. Encontro aqui histórias que gosto, portanto tive muito gosto em traduzir este ‘O Elefante Evapora-se’. Há aqui histórias… eu volto sempre a “Sono”, porque acho que é, aí está, o conhecimento do mundo feminino. Sem sexo, mas… (risos) é uma história completamente delirante. “O Segundo Ataque à Padaria”, também, é uma história espantosa. Acho que podíamos ter estado aqui duas horas a falar disso, porque há ali coisas interessantíssimas…. Claro que o “Sputnik, Meu Amor” é sempre um amor primeiro! Eu olho com muita ternura para este livro. Há imensa gente que gosta muito desse livro, para quem ele é o livro eleito. Mas… são todos diferentes. Falaram no “Em Busca do Carneiro Selvagem”. É um livro especial. Gosto mais desse que do “Dança, Dança, Dança”, apesar de “Dança, Dança, Dança” ser importante para Murakami. Mas “Em Busca do Carneiro Selvagem” permitiu-o afirmar-se como escritor. Foi um livro que também me marcou…

MPT – Quais são as perspectivas de uma visita de Murakami a Portugal?

MJL – Nós temos tentado, na Casa das Letras. Eu mando-lhe umas coisas para o Japão, umas encomendas. Uns sabonetes para a Yoko, a mulher do Murakami gosta daqueles sabonetes portugueses que nós temos… a ele vou-lhe mandar umas camisolas da selecção. (risos) Aquelas que saíram com o jornal “i” a imitar as antigas. Tenho uma para lhe mandar. Ele tem uma assistente muito simpática – a Yuki. Vou-lhe mandar também as coisas, e vou escrever-lhe. Tenho manuscrito um texto a tentar, se ele vier a Espanha - mas ele não gosta de ir aos países segunda vez - a tentar que da próxima vez, em vez de vir a Espanha, uma vez que já conhece… já comeu polvo, que venha comer o nosso polvo à lagareiro! (risos). Gostava muito de o conhecer. Gostava imenso de o conhecer. E de falar com ele. Se calhar era mais fácil eu ir ao Japão, ou então ao Havai, à ilha de Hauai, onde ele tem aquela casa…

MPT – Gosta muito de “LOST” [a série de televisão “Perdidos”].

MJL – (risos) Se calhar agora está a ver o ‘The Event’, com gosto, não é? (risos)

MPT – E por último, uma pergunta que é assim um bocadinho subjectiva, mas… o que é que a Maria João acha que os leitores ainda podem esperar de Murakami, a médio prazo? Que obras é que ele ainda nos vai poder trazer? Depois de tudo o que já escreveu, o que é que acha que se segue?

MJL – Uma coisa é certa: eu acho que ele vai continuar a surpreender-nos. Acho que este autor não vai parar, ou seja, mesmo que ele considere que esta obra seja a obra importante que ele estava à espera de conseguir escrever, mesmo que ele tenha dito isso em tom de brincadeira – ou não –, depois desta eu espero pela próxima. Tenho a certeza absoluta de que este homem tem imaginação, tem capacidade de trabalho, tem coisas para dizer para além destas 1200 páginas, que estão contidas neste romance. Pela forma física como ele está, não é?, não correndo a maratona mas correndo a meia-maratona – continuando a apostar no triatlo – e continuando a fazer aquela vida mais ou menos espartana –, era por isso que eu dizia que ele era disciplinado ao contrário de mim… Fazemos os nossos horários de trabalho semelhantes, temos muitas coisas parecidas, mas aí ele é disciplinado: come, bebe, – tirando a sua cervejita –, é disciplinado nas coisas. Portanto, eu acredito que Murakami continue a produzir a um ritmo regular. Porque ele não é – e nisso também contraria aquela imagem de escritor fácil, que escreve o romance que está aí à mão de semear no aeroporto, fácil para ser levado para ler no avião – ele produz quando tem de produzir. Ele senta-se à secretária e escreve… como um autor que escreve para se conhecer, é um trabalho que está sempre a ser feito. É um trabalho que é eterno. Não vai parar. Eu estou em crer que ele vai continuar a surpreender-nos. E que depois desta obra de fôlego – ou não –, outros trabalhos virão. Quer dizer… tenho fé neste escritor (risos), parafraseando um título que eu também traduzi, da Joyce Carol Oates, “A Fé de Um Escritor”. Tenho muita fé neste escritor. Não é apenas a imaginação, é de facto a capacidade de trabalho, e a vontade de continuar a marcar presença, a fazê-lo no seu ritmo. Portanto… eu acho que esse até é um bom argumento para a Academia sueca, porque ele, não andando nas bocas do mundo, faz o seu trabalho de uma forma inteligente. Dando poucas entrevistas mas quando tem de dizer as coisas também as diz. É um escritor surpreendente. Acho que ainda vamos ter obras importantes dele depois desta. Não acredito que “1Q84” seja a última.

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Ainda agora acabou de ler e já tem saudades das opiniões de Maria João Lourenço acerca do autor que traduz em Portugal? Gostava que a sua voz se continuasse a ouvir frequentemente aqui pelo MURAKAMI PT? Fica a sugestão de regressar amanhã... pode ser que tenha uma surpresa...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

[Pt 3/4] Entrevista Exclusiva à Tradutora!


Parte 3

Do lado direito do Tiago, num banco comprido que acompanha toda a parede, um saco grande carregado de livros. São uns quinze que estão ali dentro, no mínimo. Vão desde a edição japonesa de "1Q84", a um livro autografado pelo próprio Murakami com dedicatória para a tradutora (e que deixou os moderadores do Murakami PT de boca aberta), a traduções estrangeiras de livros do autor. Ao longo da conversa, muitos deles vão sendo referidos, e é uma constante ao longo da hora e meia o remexer no saco, procurando este ou aquele livro. Ao escutarmos a visão de Maria João Lourenço sobre o autor japonês que traduz, deixamo-nos embrenhar nesse fascínio típico - quase o mesmo de quem está a ler um livro dele.


MPT – Falou-se há pouco da rotina de Murakami. E a Maria João, tem alguma rotina em termos de tradução? Obriga-se a escrever um determinado número de páginas por dia?

MJL - Estou num período de transição, mas agora vou voltar àquilo que eu gosto de fazer. Vou voltar a traduzir como gostava. Eu sou como ele, uma vez mais: gosto de traduzir cedo, de manhã, 6:30h. X número de páginas por dia. Tentar, pelo menos. Não digo que nós consigamos traduzir as tais cinco páginas porque as cinco páginas nunca são cinco páginas iguais. Uma página de diálogos é perfeitamente diferente de uma página de texto denso. No “Kafka à Beira-mar” e na “Crónica” essa experiência foi avassaladora! Cheguei a traduzir meia página num dia! Há cenas no fundo do poço que são uma descida ao inferno em termos de tradução! Quando se está a traduzir textos desta natureza a pessoa tem de ter cuidado com as palavras. Tem que se documentar, tudo tem de ser medido, as palavras têm de ser rigorosas. Enquanto em termos de diálogos nos podemos permitir uma certa liberdade criativa, com a ajuda do mestre Carver, por exemplo. As descrições históricas da “Crónica do Pássaro de Corda”, por exemplo, que é uma verdadeira crónica, que é um livro de história, por isso é que se chama assim. É um livro espantoso em termos da história do Japão. E que diz muito sobre aquilo que o Haruki pensa em relação à história recente do país. Eu faço um plano; nem sempre bate certo mas vou voltar agora ao meu método de trabalho com este novo livro, o “1Q84”, que é pôr o despertador cedo e começar a trabalhar cedo como ele faz quando está a trabalhar. É isso e o medo que ele tem. Eu acho muito engraçada essa história, este apontamento que se não fosse tétrico era anedótico. Quando ele está a escrever um romance e está quase a chegar ao fim ele pensa sempre: “Eu só espero não morrer antes, quero acabar de escrever isto”. E eu às vezes quando estou a traduzir também penso isso. Não é que a pessoa pense na morte, mas passa-me também pela cabeça “quero acabar de traduzir o que estou a traduzir”. Pensar nisso. Não morrer antes de…

MPT − No auto-retrato encontrou algum espírito mobilizador por parte do autor? Ou seja, a capacidade de orientar as pessoas num certo sentido, de as convencer através das suas palavras… por exemplo a correr. Tem o poder de orientar massas num certo sentido? Ou não o pretende sequer?

MJL − Eu acho que ele quando escreveu esse livro, provavelmente tinha isso em mente. Não sei se ele com esse livro consegue isso, mas consegue isso com os seus livros. (risos) Essa capacidade mobilizadora, acho que ele tem. Parece-me que ele é uma pessoa muito disciplinada e que talvez seja um pouco obstinado, também. Murakami sabe muito bem o que quer, tem uma ideia muito clara do que quer fazer em termos da sua obra. Quando a carreira de escritor começou, ele foi um bocadinho surpreendido quando o primeiro livro teve o êxito que teve. Sobretudo depois do “Norwegian Wood” ter vendido o que vendeu, ficou um bocadinho espantado. E foi obrigado a parar para pensar. Daí que ele tenha tido necessidade de sair do Japão para se reencontrar. Porque não estava à espera de se transformar naquele fenómeno de massas que veio a ser e que ainda é, que é hoje em dia, de resto, mais do que nunca. Percebeu que tinha de pensar muito bem qual era o papel dele, porque as pessoas olhavam para ele como um “role model”. Portanto ele quando escreve um livro dessa natureza é obviamente com esse fito. Se ele consegue… isso eu não posso dizer. Mas para mim, mais importante do que tudo isso, é de facto o que Haruki Murakami faz com a escrita dele.

MPT – Detecta em Murakami um apurado sentido de humor?

MJL − Murakami é uma pessoa séria mas tem um sentido de humor notável, que é uma coisa que eu acho que às vezes não é devidamente valorizada. Porque ele é extremamente divertido. E ele diz uma coisa numa das suas entrevistas: “Eu gostava que as pessoas se divertissem com aquilo que eu escrevo.” Quando quer ter graça, obviamente. “Eu não me importo nada que as pessoas se desatem a rir no meio dos livros”. E a mim acontece-me imensas vezes rir-me e desatar a rir-me quando o estou a traduzir. Portanto eu acredito que as pessoas se riem, se desatam ao rir quando lêem coisas assim; tal como ficam arrepiadas com a cena do Johnny Walker. Os livros dele despertam emoções fortes, mas fazem pensar também. Têm essa dupla componente. E esse lado sério é importante para ele. Eu achei-lhe graça quando foi a entrevista que lhe fiz para o jornal “i”. Fiz-lhe assim umas perguntas um bocadinho mais sérias. E no texto que ele me escreveu, fora das entrevistas, quando chegou ao fim, uma das frases que ele me dizia em inglês era: “Well, Maria João, I’m going to leave my desk now”. E agora já chega, Maria João, pronto, já estou farto, já chega, já não quero responder a mais coisas. Portanto, ele no fundo acha que a obra fala por ele. E é na obra que ele se afirma.

MPT – Outro elemento que também encontramos na escrita dele é o erotismo. Ele já falou disso em algumas entrevistas, mas qual é a sua opinião acerca de essa componente estar presente nas obras? Qual a sua importância? Porque, por exemplo, aquele penúltimo capítulo do ‘A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol’ cai ali como uma bomba… fica a destoar um bocado do resto do tom…

MJL – Eu se pensar nas cenas de sexo nos romances dele, eu diria que é quase sempre uma coisa serôdia, calma. Ou seja nunca levantam sequer grandes problemas ao nível de tradução, é sempre uma coisa que se passa assim… quase como quem não quer a coisa, precisamente. Aquilo acontece: os homens vivem com as mulheres, fazem sexo, viram-se para o outro lado… e não me oferece grandes problemas. Depois de vez em quando há assim umas cenas estranhas. O ‘A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol’ é um livro bastante diferente. Essa cena é quase de subjugação. Eu diria que o Haruki Murakami entende bem o universo feminino. Esse livro, é muito feminino, quase… o meu japonês entende bem a alma feminina. Embora ele diga às vezes que não e que teve dificuldade em penetrar na mente da mulher, eu acho que ele o faz sem dificuldade. Da mesma forma como penetra na mente de um rapaz de 19 ou de 20 anos, consegue penetrar naquele mundo. Não é que ele faça pesquisa. Ele consegue descrever bem as coisas. Essa cena de sexo é como se fosse um triunfo da mulher sobre o homem, quase. Acho que a cena é a compreensão da mulher, mais nada. Mas há até quem diga que essa mulher não existe!

MPT – Já tínhamos abordado um bocadinho esta questão, do Murakami ser um escritor político, de alguma forma. O surrealismo que ele usa tem algum propósito ou é tão inocente como parece? Ou seja, são metáforas com algum sentido político?

MJL – Bem, as metáforas têm sempre um sentido, não é?

MPT – Sim. Mas… será que estão de alguma maneira… não sei explicar muito bem…

MJL – Não?

MPT – Vamos lá a ver como posso explicar… A minha professora de história tinha visto o “Em Busca do Carneiro Selvagem” em cima da minha mesa. E eu expliquei-lhe mais ou menos como é que era a história, que era um bocado surreal: ele ia em busca de um carneiro que ia mudar o mundo. E ela colocou essa questão: ‘Mas isso tem algum sentido político?’, e ficou-me a pergunta na cabeça. Será que aquela busca tem alguma correspondência com questões práticas?

MJL – ‘Em Busca do Carneiro Selvagem’ foi um livro muito importante para ele. Foi o livro que o permitiu afirmar-se como escritor… por alguma coisa é que ele depois não quer que se traduzam os outros dois primeiros livros dele. É um livro em que ele começa a interrogar-se sobre si, sobre o Japão. Em que ele mergulha pela primeira vez nas suas próprias raízes. A «Trilogia do Rato» é, no fundo, um retrato interessante do Japão. E como é que nós havíamos de dizer isto para as pessoas que não vão ler nunca… eu lembro-me de ter lido que havia quem questionasse se o J não era o Jesus. É a tal coisa, as metáforas e estas interrogações depois podem levar-nos muito longe. O livro [Em Busca do Carneiro Selvagem] recebeu um prémio importante, e pôs a Academia Japonesa a repensar a posição de Murakami no mundo das letras. Não foi um livro fácil de traduzir. O “Dança, Dança, Dança” já é um bocadinho diferente. Mas é engraçado, porque o Murakami gosta muito do ‘Dança, Dança, Dança’ apesar de não ter o prestígio do ‘Em Busca do Carneiro Selvagem’. Ele diz que “foi um dos livros que tive absoluta necessidade de escrever, quase como se retratasse um processo de cura, depois de “Norwegian Wood”. Portanto, depois de ter escrito um livro que era mais autobiográfico porque falava daquela fase da juventude dele, e da fase das lutas estudantis, e aquele período todo da contracultura, diz ele que “sem margem de dúvidas gostei mais de escrever ‘Dança, Dança, Dança’ do que qualquer outro romance”. Mas isto em relação aos anteriores, dos outros não diz nada. É a primeira vez, diz ele, em que o narrador – o tal “boku” – fala de uma forma assumida, coisa que a partir daí já é muito constante nos romances dele, do estado de tristeza.

MPT – Porque é que acha que ele decidiu não editar os dois primeiros da trilogia fora do Japão? Perfeccionismo, ou outro motivo?

MJL – Eu acho que é do ponto de vista estilístico, ele não gosta tanto das obras. Penso que é por essa razão. Acho que Murakami pensa que se trata de obras imperfeitas. Eu leio-os e acho que são obras tão imperfeitas quanto obras imperfeitas de outros escritores que têm as obras editadas. Francamente, é isso…

MPT – Eu ao ler, por exemplo, do segundo gostei bastante. O primeiro é mais estranho, mas…

MJL – É mais estranho, concordo. Mas é a tal coisa, como nós lemos hoje em dia obras de outros escritores, e depois dizemos assim “este livro não é tão bom mas foi aquele livro que ele escreveu naquela altura”. Os livros são escritos num determinado tempo. E ficam ali, portanto, nós não estamos a fazer juízos de valor… além de que um escritor não está sempre a escrever melhor! Um escritor escreve, depois volta atrás. Há bocado eu estava a referir o caso do Lobo Antunes: eu gostei muito dos primeiros livros do Lobo Antunes, depois tive uma fase em que deixei de o ler, por não o conseguir. E agora acho que o António Lobo Antunes está a reaproximar-se dos leitores… pelo menos da leitora que gostava dele que eu era. E em relação ao Murakami acontece-me o mesmo, há livros dele a que eu não acho tanta graça. Os escritores não escrevem todos obras perfeitas, as obras são imperfeitas. Eu adoro o Ian McEwan e não gosto dos livros todos dele por igual. Eu acho que ele considera livros imperfeitos, e não quer… nós temo-los, pelos vistos, somos uns felizardos. (risos) Já tentei [pedir autorização para os publicar em Portugal], já tentei, mas…

MPT – Estivemos “a investigar” e, além desses dois, ainda há mais duas obras existentes em Inglês não traduzidas em Portugal. O “Hard-Boiled Wonderland and the End of the World”, e o ‘After the Quake”. Já leu estes dois?

MJL – Ainda há mais um, o ‘Birthday Stories’, que não é dele, só tem um conto dele, já traduzido por mim e publicado na colectânea “A Rapariga Que Inventou Um Sonho”, mas que reúne contos de outros escritores. Já li essas duas obras. Eu estava a traduzir o ‘Hard-Boiled Wonderland’…

MPT – Como é que foi a experiência de tradução?

MJL – Eu estou a traduzir… mas vou parar para colocar o “1Q84” à frente. O “Hard-Boiled” é um romance de fôlego, uma obra importantíssima na carreira dele. Tem um tom um bocadinho mais de ficção científica. Dois níveis narrativos paralelos. Duas histórias com um narrador, um mesmo narrador. Uma das histórias tem um tom mais policial. Ele foi tradutor de Raymond Chandler e sempre gostou muito de policiais; por outro lado também gosta muito de ficção científica. Portanto, há um lado que é mais policial, e há outro lado que tem mais que ver com a escrita da ficção científica, aquela pura e dura dos romances do Philip K. Dick. Portanto, são dois universos paralelos. Um dos narradores é um homem mais sonhador, que interpreta sonhos. O outro é… reencontramos a nossa velha figura do engenheiro informático, um bocadinho mais pérfido (risos), e está ao serviço do sistema, uma corporação. Não é fácil de traduzir… tem simbologias mil. Ele que diz sempre que os símbolos não existem! Murakami tem esta faceta de negar certas coisas. Diz sempre “Ah, os símbolos não existem, isto são…”. É aquela história do vulcão no “Segundo Ataque à Padaria”, que é uma história que eu adoro! Ele diz sempre “Um vulcão, qual é o problema? Um vulcão, uma pessoa tem fome, eu vejo um vulcão! Vocês não vêem um vulcão? Não, não… não é um símbolo!”. (risos) Mas eu acho essa história magistral; assim como o “Sono”, que é outro conto de “O Elefante Evapora-se”. É uma história que eu acho muito bem escrita. Os símbolos existem. Este romance está pejado de simbologia. Mas são duas histórias muito interessantes que têm que ver com o mundo moderno, e com os problemas que se deparam ao homem no mundo moderno. Já o li, mas ainda só vou no princípio da tradução. Agora vou ter que parar, mas posso dizer-vos que tem momentos riquíssimos. Tem um vago tom de “thriller”, ou seja, tem perseguições, tem “maus da fita”, tem qualquer coisa de “Kafka à Beira Mar”, também.

MPT – Falando no “Kafka”, pode-nos falar um pouco acerca dessa obra de Murakami, uma das mais vendidas do autor em Portugal?

MJL - Eu acho que o “Kafka” conseguiu tocar as pessoas mais novas e para mim foi espantoso. O “Kafka” recebeu o ano passado o prémio San Clemente, que é todos os anos atribuído pelos jovens do Instituto Rosalía de Castro, em Espanha, na Catalunha. Jovens entre os 16 e os 18 anos! Trata-se de um prémio escolhido pelos jovens daquela idade que é atribuído a um romance, e a um escritor. É um prémio presencial, portanto, o escritor tem de vir receber. Ele vem recebê-lo! Passou dois dias a passear, ali pelas ruas de Espanha, a comer polvo, e a dar entrevistas! Achei espantoso… depois responde às perguntas dos jovens todos! Isto é o tipo de prémios que ele gosta de receber. Foi o mesmo ano em que recebeu também o tal prémio de Jerusalém. Mas tenho a certeza que se lhe perguntassem, para ele [o San Clemente] era o prémio mais importante. Porque aí, ele sente-se recompensado. Vê que o livro chega a uma parte do público onde ele quer chegar. Ele deve-se ter sentido nas suas sete quintas, em Espanha, onde nunca tinha estado. Murakami gosta da Europa. Ele já viveu na Grécia, já viveu em Roma. E responder às perguntas daquela multidão de jovens, que só queriam ter ali o Murakami para lhe colocar uma série de questões… Umas mais fáceis, umas mais difíceis, mas todos tinham lido o livro, e tinham achado o livro uma coisa fantástica. Por isso, ele sentiu-se naturalemente compensadíssimo. E ele tão perto, e nós sem saber disso! Só soube quando li no jornal. O “Kafka” cá vendeu imenso. Foi de facto o livro que mais vendeu, e na Feira do Livro era ver as pessoas saírem com o “Kafka à Beira Mar” debaixo do braço. É impressionante comoaquele livro chega aos mais diversos públicos, sobretudo aos jovens. E não é apenas por ter uma personagem de 15 anos. É um romance com muitos romances lá dentro.

MPT – Qual é a previsão de lançamento do “1Q84” em Portugal?

MJL – Eu penso que será depois do Verão [de 2011]. Setembro, Outubro. A primeira parte. Vai ser publicado em três partes. Porque os livros ficam muito volumosos se num só volume, mais difíceis de carregar.

Continua...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

[Pt 2/4] Entrevista Exclusiva à Tradutora!


PARTE 2

A conversa vai evoluindo. A fase dos nervos iniciais já passou, e começa agora a fluir tudo com mais naturalidade. Em cima da mesa, três copos. Um de água, um de sumo, e um de leite com chocolate. Não interessa quem bebeu o quê. O plástico de onde se retirou as palhinhas a ser remexido, a máquina do café a fazer-se ouvir de vez em quando, e as conversas nas mesas do lado, quase sempre sem incomodar por aí além. E Maria João Lourenço a conversar connosco, sobre um autor que - em comum aos três elementos ali sentados, mudou um pouco a forma de ver o mundo - Haruki Murakami. Para ler a primeira parte da entrevista, carregue aqui.


MPT - Qual é que é a sua relação com o Japão? Com o país, com os costumes…

MJ - É através do Haruki Murakami, sem dúvida. Espantosamente nunca fui ao Japão. Está nos meus planos. As viagens ao Japão são caras e implicam tempo. Não gostava de ir numa viagem turística. Estou sempre a pensar: para o ano tiro três semanas, faço umas férias de um mês, junto dinheiro (risos)… conheço uma autora que vai este ano ao Japão numa viagem de três semanas, realizada pelo Centro Nacional de Cultura, e que custa 8000 euros. Quem é que tem 8000 euros para fazer uma viagem dessas? (risos) Bem, algumas pessoas têm. Não sou uma viajante. Não gosto muito de viajar, é verdade, portanto aí eu estou resguardada, é a minha melhor defesa. Gosto de viajar, mas através dos livros. Tenho um amigo que viaja muito e que me diz sempre “É impressionante porque tu realmente tiras férias ou para trabalhar ou para estar no mesmo sítio a ler livros”, mas é verdade. Os livros são a minha forma de viajar. A minha relação com o Japão é através do Haruki Murakami, ou através dos filmes sobre o Japão que é uma coisa que eu procuro ver sempre. Vejo bastante cinema japonês. Portanto eu procuro ler tudo o que há para ler: não guias de viagem, obviamente. Artigos que saem nas revistas. Por exemplo, este livro “Contos da Lua e da Chuva”, de Ueda Akinari, que esteve na origem dos “Contos da Lua Vaga” do Mizoguchi, já o devo ter lido 3 ou 4 vezes, porque é o chamado livro para estar no carro. É um livro também muito caro ao Murakami, que de vez em quando regressa a ele; e aquele mundo dos fantasmas presente na obra dele tem que ver com este universo que aqui está. O Murakami é muitas vezes injustamente acusado de escritor pop, pós-moderno… Pós-moderno eu ainda aceito, agora pop acho que não. A ligeireza com que o acusam disso parece-me injusta. A verdade é que ele mergulha no Japão antigo e consegue fazer a ponte para o Japão dos dias de hoje de uma forma perfeitamente feliz. É isso que atrai os leitores que Murakami tem no Japão e no mundo oriental. Os livros dele são muito vendidos em todo o oriente, o que é uma coisa espantosa.

MPT – E no Ocidente?

MJL – No ocidente também vende imenso, sobretudo depois do 11 de Setembro. É a partir daí que as obras dele começaram de facto a ter um peso imenso no mundo editorial. É curioso que tenha sido no mundo em crise ocidental que a obra dele começou a vender-se mais. As pessoas não lêem Murakami por mero acaso, não tem nada que ver com literatura de aeroporto. Não é por acaso que os 500 mil exemplares dos dois primeiros volumes do 1Q84 se tenham esgotado em dois dias. Há algo mais para além do conceito de pop. Eu acho que ele consegue realmente voltar atrás, e depois avançar um bocadinho em relação ao futuro, e falando de coisas que são importantes para as pessoas que vivem nos dias de hoje. E as pessoas encontram nos livros de Murakami coisas que lhes dizem respeito, e que não encontram noutros autores mais sérios e que têm uma obra fantástica e belíssima e que vale por si. Essas pessoas procuram autores que lhes falem do Japão de hoje da forma como ele lhes fala, no tom em que ele lhes fala, fazendo a ponte com sociedades com as quais as pessoas que vivem no Japão são confrontadas todos os dias. Por exemplo, no filme da Sofia Coppolla, “Lost in Translation” [“O Mundo É Um Lugar Estranho”], as pessoas que vêem esse filme e que vêem aquelas imagens - estou a falar de pessoas da vossa geração – de Tóquio, aquela imensidão de marcas e aquela noite que se prolonga…

MPT – Como é muito falado no “After Dark – Os Passageiros da Noite”, não é?

MJL - Aquele poema urbano que é o “After Dark”… um livro um bocadinho incompreendido que partiu de uma imagem - os livros muitas vezes partem de uma imagem, de uma pessoa que se vê, de uma frase. Essa fauna que deambula por Tóquio de noite. A prostituição, o karaoke e todo esse mundo que existe… Possivelmente outros escrevem sobre outro mundo. Mas os japoneses querem ler sobre aquilo que vêem no dia-a-dia. E a verdade é que o Haruki Murakami faz isso com uma qualidade, acho eu, inexcedível, a nível literário. Tem romances melhores e romances porventura menos felizes, mas eu acho que ele consegue realmente reflectir, abordando outros temas muito importantes que são imutáveis: o que é que estamos aqui a fazer, a memória, a morte… são temas eternos e que estão no espaço comum.

MPT – Um leitor do blog perguntava se traduz directamente do japonês… e eu acrescento à questão quais são as línguas que entende e domina?

MJL – Eu traduzo do inglês. Quando tenho boas traduções – considero que ele está bem traduzido em espanhol e em italiano, sobretudo –, socorro-me dessas boas traduções que existem. São pontos de apoio. Os franceses são uns efabuladores, traduzem sempre de uma forma muito poética permitindo-se sempre grandes devaneios. Portanto, eu afasto-me deles. Eu traduzo rigorosamente do inglês, permitindo-me pôr algumas expressões portuguesas que têm sentido… as pessoas têm dito que se sentem bem a ler um livro que de uma ponta à outra consegue falar bom português, ou seja, consegue manter um estilo… ter para cada personagem uma determinada linguagem. Quando eu tenho uma tradução inglesa, sigo-a à regra. Depois olho para uma tradução espanhola, olho para uma tradução italiana. E se estou ali a perceber que há uma correspondência entre aqueles três pólos de tradução, sei que estou a fazer um bom trabalho, ou seja, sei que estou a ser fiel à tradução inglesa porque em espanhol e em italiano eles não se afastam daquele cânone. No caso do “1Q84” não vou ter ajuda, porque nós vamos sair possivelmente antes de qualquer outra tradução estar cá fora. Portanto, vou ter só o alemão… os alemães são mais secos. Eu procuro junto das línguas que sei: espanhol e italiano, falo alemão… sou de Línguas e Literaturas Germânicas, Línguas e Literaturas Modernas, inglês e alemão.

MPT - Existem determinadas expressividades na língua japonesa que eventualmente não são transportadas para a tradução inglesa?

MJL - Isso pode acontecer, sim. E o Jay Rubin, no “Haruki Murakami and the Music of Words”, aborda essa questão. Existem três tradutores da língua inglesa, o Jay Rubin, o Philip Gabriel e o Alfred Birnbaum. E por vezes acontece. Mas eles estão sempre em contacto, falam directamente com o Haruki Murakami. O Jay Rubin para fazer este livro foi ao Japão, esteve a entrevistar o Haruki e a Yoko, portanto há um grande contacto entre eles. Estes pormenores são limados, eles têm conversas sobre o assunto. Penso que quase nada é deixado ao acaso, por isso, quando o trabalho chega na língua inglesa, já chega na sua forma depurada e mais correcta possível. Portanto aquilo que eu tenho, aqueles “Harukismos”, aquelas expressões “Great, oh Great” que eu traduzo, por exemplo, como “Bonito. Contado nem se acredita.” Foi a forma que eu encontrei para traduzir. Permito-me traduzir assim porque eu sei que ele já traduz dessa forma porque já falou com o Murakami (risos)! É uma corrente que funciona. Não é uma liberdade que eu tomo porque me passa pela cabeça inventar. Digamos que as coisas estão tratadas e foram faladas…

MPT – Existem ainda outros livros dele editados em Portugal, como por exemplo o “Underground”, que não foi traduzido por si… queria saber se já o leu, e se gostaria de também o ter traduzido.

MJL - Editado na Tinta da China… é um belo trabalho. Que é traduzido por Susana Serras Pereira. Eu gostava de ter traduzido esse livro, porque também apelava ali à minha costela jornalística. É interessante esse livro, porque fala do lado de ligação ao mundo real. A minha costela jornalística e a costela jornalística que eu acho que o Murakami tem. Porque ele é muito interessado apesar do seu afastamento dos fenómenos, da televisão do Japão, de não gostar de aparecer. Tem esse lado de reclusão, de facto. Bom, também não é propriamente um Salinger nem um Cormac McCarthy! O Murakami é interessado na história do país dele e eu acho que ele tem feito esse trabalho nos romances dele. A “Crónica do Pássaro de Corda” mostra que ele é um indivíduo extraordinariamente atento ao fenómeno político. E até tem conquistado prémios na Europa… A vizinha Espanha, por exemplo, já lhe deu dois importantes prémios, o último dos quais o ano passado, que atestam bem a importância que este escritor tem para as letras na Europa. Eu acho que em Portugal nós andamos um bocadinho a não ver bem a coisa e acho que a imprensa não lhe tem dado o devido valor. Em relação por exemplo ao “O Elefante Evapora-se”… acho que não se justifica a falta de críticas, porque é um livro de contos importante. Eu gosto muito deste livro, acho que tem histórias extraordinariamente interessantes em alguns dos contos. Deu-me muito gozo traduzi-lo, confesso. Ele é muito interessado em tudo o que se passa à nossa volta e escreve artigos interessantes para quem gosta de estar na Net e de vez em quando fazer pesquisa. E lá fora fala-se dele amiúde a propósito das mais pequenas coisas. Ele recebeu há dois anos o Prémio Jerusalém, fez um discurso bastante interessante de se ler também, porque era um discurso politicamente curioso e ao mesmo tempo literariamente profundo. E não muito distante da linguagem que ele usa nos romances: achei muito curiosas as metáforas que ele usa sobre “o muro” e o facto de nós sermos um “ovo frágil”. Agora perdi-me um bocadinho por causa da história do jornalismo, mas o “Underground” era um livro que eu gostava de ter traduzido. Embora esteja bem traduzido. Eu ando a fazer um trabalho de investigação sobre a escrita dele. E sobre os livros dele. E acredito que quem o traduzisse do japonês pudesse fazer esse trabalho diferente, é evidente. Eu gostaria de fazer esse trabalho em japonês no futuro. Num futuro não muito distante mas acredito que distante ainda porque o japonês é uma língua muito difícil. O trabalho cultural em relação ao país e à cultura tenho-o feito, mas depois a língua é um outro mundo de facto à parte. Eu entendo este autor. Tenho uma relação com ele muito epidérmica, quase. Portanto eu estou a traduzi-lo e sinto isso. Eu sinto as questões de que ele fala, eu entendo para além dos livros − nas entrevistas, há coisas que ele diz que eu sinto quase como minhas. Pode soar um bocado ridículo, mas eu entendo este homem. Portanto, é um trabalho que eu tenho vindo a fazer e procuro fazê-lo da melhor forma, procuro ler tudo e estudar o mais possível.

MPT − Fale-nos um pouco sobre a questão musical nas obras dele, uma vez que esta se encontra cheia de momentos musicais… dessa constante da música na escrita dele. E ao traduzir também está a ouvir essas mesmas músicas, ou prefere o silêncio?

MJL − Eu sou como ele, quando traduzo não ouço música. E ele quando escreve também não ouve música (risos). Portanto, também aí nos encontramos. Os meus gostos de jazz vão ao encontro dos gostos dele. Quanto à música clássica, também gostamos dos meus compositores. Acho muito engraçado a forma como ele consegue introduzir em cada um dos romances o Rossini, o Wagner, o Mozart e o Chopin. Música pop… no pop e no rock é que nos distanciamos um bocado mais. No fundo, temos 8 anos de diferença e aí é que nós estamos mais distanciados. Se calhar gostamos os dois dos Doors e dos Queen, mas depois ele tem gostos que me deixam perfeitamente espantada de vez em quando (risos). Mas eu entendo. Ele tem de correr e aquelas batidas são importantes para quando ele anda a correr (risos), portanto eu desculpo o gosto dele nessa área. É muito engraçado, todos aqueles discos que ele tem de jazz e o trabalho que fez quando tinha o bar − o “Peter Cat” - que foram extraordinariamente importantes para a formação dele como escritor. Não a nível das músicas que ele depois põe e dos músicos que ele cita nos romances, mas para a formação, para a rotina, a chamada carpintaria. Eu acho que foi muito importante aquela rotina de quando ele ainda não sabia que ia ser escritor e tinha aquele bar. Quando ele não quis ser, um “salary man”. O assalariado, o empregado de escritório japonês. Quando ele não quis ser isso, e teve a oportunidade porque o sogro, o pai da Yoko, avançou com algum dinheiro e ele pôde ter o seu bar. O percurso dele é um bocadinho diferente do da maior parte dos japoneses.

MPT − Essa história dele parece quase o “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”… Também era o pai da mulher dele que arranjava dinheiro…

MJL - (risos) Exactamente… Que eu não diria ser o livro mais autobiográfico, até porque ele consegue dizer muita coisa acerca de si próprio mas disfarça bem as coisas. Se calhar o livro menos auto-biográfico acaba por ser o “Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo” (risos) em que ele diz assumidamente: “E agora vou-vos contar aqui a minha história…”. Há muito dele nos seus romances. É por isso que eu acho que Murakami consegue ser genial nos romances, e quando eu falo da relação que tenho com a escrita dele passa por aí. Às vezes estou a traduzir pedaços e consigo quase chegar ao que está ali, para além do texto. E estou a reconhecer o homem para além do autor. Mas ele fez um percurso muito pouco óbvio porque demorou muito tempo a terminar o seu curso… Fala disso com muita graça, das horas que passava ali a cortar cebolas, e a pôr aquelas cebolinhas que se põem nos “cocktails”… E lia imenso nas alturas em que o bar não tinha frequentadores. Depois ficava a lavar os copos, depois ia para casa… essa rotina… tudo isso funcionou como uma fonte de inspiração para o escritor que ele depois veio a ser. Portanto o bar é não só o jazz, como é também uma tarimba, um trabalho manual que ele tinha que fazer. Lavava copos e distribuía as bases dos ditos copos e enxugava as coisas e trabalhava mesmo no duro. Lavava os caixotes do lixo, possivelmente, já estou assim a inventar. (risos) Mas fazia tudo isso. A história da vida dele é engraçada. Eu perguntei-lhe naquela entrevista que eu fiz para o jornal “i” se ele alguma vez ia escrever uma autobiografia "à séria" e ele disse-me que não. Acredito que de facto não o faça. Mas eu acho que uma pessoa que leia os romances dele de uma ponta à outra consegue traçar ali o perfil do homem. Há muito dele, não de uma forma primária, escarrapachada, mas há muito dele em personagens centrais: no Toru, em contos… “A Minha Pobre Tia” tem muita coisa em que ele fala da escrita dele. Vendo bem, lendo bem nas entrelinhas, ele fala muito do processo de escrita…

Continua...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

[Pt 1/4] Entrevista Exclusiva à Tradutora!


Está uma soalheira manhã de sábado no Campo Pequeno, em Lisboa. Saímos da estação do metro, um toque à tradutora portuguesa de Haruki Murakami - Maria João Lourenço -, «Bom dia! Onde é o café?», e após alguns minutos de desencontros, por fim o momento em que nos juntamos. A Maria João brinda-nos com uma simpatia ímpar, e se ainda não estávamos totalmente à vontade com a ideia de fazer esta entrevista presencial, sem dúvida que a hesitação se dissipou após aquele momento. O interior do café é inspirador. «Onde nos sentamos?», e a Marta: «Aquela mesa tem mesmo aspecto de entrevista». Não sei se foi da mesa, ou se de outros factores, mas a verdade é que acabou por correr muito bem. Deixamo-vos com a primeira de quatro partes desta hora e meia de conversa, que iremos publicar semanalmente aqui no blog. Esperamos que gostem, e manifestem os vossos comentários.


MPT - Queríamos começar por perguntar quando ocorre o primeiro ponto de encontro entre a Maria João e o Haruki Murakami. Quando ouviu o nome pela primeira vez… falamos de que ano?

MJL - O “Háruki” Murakami porque é acentuado a sílaba “Há” em Haruki”, mas n
ós em Portugal dizemos sempre “Harúki” Murakami. No seu livro “Haruki Murakami and the music of words”, Jay Rubin, que é um dos seus três tradutores da língua inglesa, acentua isso. Eu tenho sempre dificuldade com datas… o primeiro livro que traduzi dele foi o “Sputnik Sweetheart” [Sputnik, Meu Amor]…

MPT - Leu alguma coisa dele antes de traduzir…?

MJL - Tinha lido aquele livro que ficou depois conhecido por “Crónica do Pássaro de Corda” – por ter sido o primeiro, continua até hoje a ser o meu preferido. Foi uma coincidência muito grande o facto me terem dado o Murakami para traduzir. A primeira edição (com uma bela capa do Tiago Cunha, depois começaram a ser feitas pela Maria Manuel Lacerda, excepto “A Crónica do Pássaro de Corda”, que tem a marca da Neusa Dias) do “Sputnik Sweetheart” - ainda na Editorial Notícias, que era como se chamava a Casa das Letras - é de 2005. Eu devo ter começado a traduzir em 2004… portanto, tinha-o lido para aí dois anos antes. Foi um livro que eu achei fascinante, e continuo a achar. É um livro fora de série, daqueles livros que marcaram o autor como um autor diferente de todos aqueles que eu já tinha lido até então. Estava numa fase de mudança da minha vida quando mo deram para traduzir, porque sou jornalista. Tinha traduzido um livro 20 anos antes, do George Pompidou [“O Nó Górdio”], traduzia artigos, aquelas traduções que não ficam nunca no currículo. Mas nunca tinha pensado virar-me para a tradução, e de repente mudei de vida e o primeiro livro que me dão é o de um autor que eu já tinha lido, de que tinha gostado muito, que me tinha marcado imenso e que ficou a ser para mim o meu autor de eleição! Foi muito engraçado.

MPT - Quando começou a traduzir o “Sputnik Sweetheart”, quais foram as primeiras dificuldades ou particularidades que detectou no estilo dele, e que viveu na pele durante o processo de tradução?

MJL – O “Sputnik, Meu Amor” não apresentou grandes dificuldades estilísticas. É um romance pequeno, um livro um pouco mais ligeiro do que outros como a “Crónica do Pássaro de Corda”, por exemplo, ou o “Kafka à Beira-mar”, que foi um livro difícil de traduzir, muito embora eu continue a achar que a “Crónica do Pássaro de Corda” foi talvez aquele que tenha levantado mais dificuldades a esse nível. Inclusivamente entrei em contacto com o Haruki Murakami para resolver algumas pequenas questões, porque tem vários níveis narrativos e há ali várias questões que se colocam. Este livro do Jay Rubin [Haruki Murakami and the Music of Words], sendo ele um dos tradutores da língua inglesa, avança com algumas dessas questões. Ele começou a ser traduzido tarde em português. Descobriram-no tarde em Portugal; por cá, não começou a ser traduzido pela ordem cronológica. Portanto, agora tentamos acompanhar o ritmo e até posso dizer que temos conseguido publicar os romances mais cedo do que os espanhóis. Nesse aspecto até temos marcado pontos e, de facto, a Casa das Letras tem feito um belíssimo trabalho. Alguns romances já estavam traduzidos em espanhol, em italiano ou em alemão – os alemães são sempre os primeiros, como se vê pelo “1Q84”, que já se encontra editado na língua germânica, antes mesmo de os ingleses o terem feito. Murakami está muito bem traduzido em espanhol e em italiano, tem um ou dois tradutores apenas, corresponde-se com eles. Como sabem, o próprio Haruki Murakami é tradutor. Portanto, ele relaciona-se com os seus tradutores. Quando há boas traduções nós conseguimos equilibrarmo-nos. Eu não traduzo directamente do japonês, gostava de fazer isso um dia, mas é uma língua difícil e agora como tenho uma outra profissão, a de editora, torna-se um bocadinho difícil conciliar tudo. Comecei a aprender a língua mas tive de fazer uma paragem, porque o dia não tem horas suficientes para fazer tudo! Não quando se quer conseguir traduzi-lo a este ritmo, editar as obras dele e colocar a Casa das Letras na vanguarda, conseguindo editar um dos volumes do “1Q84” para o ano que vem. Mas dizia eu que o “Sputnik, Meu Amor” não me ofereceu grandes dificuldades. É um livro que, tirando pequenas questões… lembro-me de uma dúvida que eu tinha ao traduzir … um “chá de cevada”. São coisas engraçadas… do ponto de vista estilístico não me levantou grandes problemas. Agora outros romances… o “Kafka” deu-me bastante trabalho, mas tinha a versão alemã. Os alemães traduzem-no de uma forma um pouco mais seca, reduzem-no ao essencial. Penso que os alemães e os espanhóis são os que fazem o melhor trabalho. Isto tendo em conta que a versão inglesa é uma versão muito próxima do japonês. Eu acompanho a troca de diálogo que ele mantém com os seus tradutores ingleses. O próprio Haruki Murakami, como tradutor, é o primeiro a defender que a tradução é um trabalho criativo. Às vezes perguntam-lhe: “Os seus trabalhos são traduzidos da língua inglesa e não directamente do japonês. Isso não o perturba?”. Ele diz sempre: “Não. Claro que gosto que os meus trabalhos sejam traduzidos do japonês mas que me interessa a mim que uma obra chegue ao público 5 ou 10 anos depois de ter sido lançada? Eu quero que o meu livro chegue no ano seguinte. Quero que as pessoas estejam a par daquilo que eu escrevo, logo que ele é escrito. Acredito que os tradutores fazem um bom trabalho e sei que o meu livro está bem traduzido na língua inglesa.” Ele sabe que conta com tradutores fiéis na língua inglesa, por isso ele conta que depois também os outros tradutores que o fazem a partir da língua inglesa sejam fiéis ao inglês, acredita que não se perca muito pelo caminho. De qualquer forma, hoje em dia, tendo em conta a teoria da tradução, aquela velha questão do “tradutor traidor” perdeu algum sentido. Excelentes teóricos da tradução, como João Barrento, revogam que a tradução é sempre uma recriação do original. É importante captar o espírito da obra, atento à linguagem, sem dúvida. Portanto, este trabalho não me ofereceu grandes problemas… quer dizer, eu sofro sempre um bocadinho a traduzir porque sou uma pessoa ansiosa por natureza, o trabalho do tradutor para mim é sempre um trabalho doloroso. Mas o primeiro [“Sputnik, Meu Amor”] não foi um trabalho diabólico. Tenho uma relação muito intensa com a escrita dele porque eu gosto do que ele escreve. Para mim isso é muito importante. Porque eu entro muito facilmente na obra dele. Gosto do que ele escreve, entendo-o. Leio coisas sobre Murakami, leio as entrevistas todas. É um autor que tem teses publicadas sobre ele lá fora, que é estudado nas universidades, não é um autor menor. Não é por acaso que é falado todos os anos para o Nobel - isto apesar de em Portugal não lhe darem o devido valor em termos da comunicação social. E a nível da linguagem, a nível do trabalho que fez em relação à literatura japonesa… e eu tenho em relação à sua escrita, aos valores que ele defende e ao universo dele uma relação de grande profundidade. Essa identificação, porque somos os dois… não propriamente da mesma geração, é da geração anterior à minha, mas atravessámos períodos semelhantes da história, eu entendo o que ele diz, percebo muito bem… além de sermos ambos filhos únicos. Aquela teoria sobre os filhos únicos é muito curiosa, e eu partilho as ideias que Murakami avança nos seus livros sobre os filhos únicos. Às vezes dou por mim a sorrir, se não mesmo a dar gargalhadas com coisas que ele escreve sobre os filhos únicos porque percebo-o perfeitamente, entendo muita coisa do que ele diz nos seus livros. Há alturas em que me distancio dele e há livros de que gosto mais e de que gosto menos. Mas é um autor que me dá muito gosto traduzir e isso é meio caminho andado. Portanto, voltando ao início da pergunta, não tive grandes dificuldades.

MPT - Gostávamos de voltar um bocadinho atrás, literalmente, mais concretamente à sua infância. Como é que foi, em termos culturais. Já gostava de ler?

MJL - Muito. Sempre. Com o meu pai aprendi a gostar de cinema, embora só um bocadinho mais tarde. Mas a leitura… não sei explicar porquê, se calhar por ser filha única, os livros funcionaram sempre como os melhores amigos, um bocadinho como refúgio. Lembro-me de ler em todas as alturas, antes do tempo determinadas obras, as obras proibidas. Deitava-me muito cedo por imposição maternal, mas lia com uma pilha daquelas pequeninas. Lembro-me perfeitamente do objecto. Às vezes ando naquelas feiras à procura, passo assim os olhos pelos objectos que estão a ser vendidos e digo “se eu encontrar uma pilha parecida com aquela…”. Se encontrasse uma pilha daquelas comprava-a, porque aquilo era um objecto de estimação, de culto. Lia debaixo dos lençóis para a minha mãe não ver porque havia uma altura em que vivíamos numa casa que tinha daquelas portas que têm um vidro em cima - portanto tinha que apagar a luz. Estava na cama às 8:30h, e isto assim com 10, 11 anos! Portanto eu lembro-me de ler sempre, sempre, sempre, de estar sempre a ler. Ainda hoje sou uma devoradora de livros. Não consigo conceber a vida sem ler, tenho livros em todo o sítio, dentro do carro, na mala, não posso pensar que sou apanhada numa circunstância qualquer e que não tenha um… ficar fechada num elevador, por exemplo! Sou um bocado claustrofóbica, e não ter um livro…

MPT - Tem autores favoritos?

MJL - Eu não consigo, de facto, ter um autor favorito. Àquela pergunta “que livro levaria para a ilha deserta?”, confesso que tenho muita dificuldade em responder. Eu sei que livro levaria para a ilha deserta porque - tinha de responder a isto com uma pistola apontada à cabeça, claro - era William Shakespeare. Porque dentro das Obras Completas de “William Shakespeare” acho que está a literatura toda lá dentro: tem poesia, drama, romance, teatro, tem tudo. É um autor completíssimo, inesgotável. Eu dei Shakespeare na faculdade e a pessoa pode estar sempre a lê-lo que nunca o descobre completamente. Voltando à questão da ilha… as pessoas respondem normalmente que levam o “Ulisses”, de James Joyce, que eu nunca li; ou que levam “D. Quixote de La Mancha”, que eu também nunca li, e tenho de ler. Acho que o “Ulisses” nunca vou ler, confesso, mas o Cervantes vou ler de certeza, toda a gente me diz que sim, e está na minha agenda para fazer isso o mais rapidamente possível. Eu estou a ler o “Submundo”, do Don DeLillo, que é um autor americano que me diz imenso, e esta, por sinal, uma obra fascinante. Gosto do Raymond Carver, que é um autor de eleição do Murakami - traduzido por ele -, de quem ele ficou amigo numa viagem que fez aos Estados Unidos. O Carver morreu pouco antes de uma visita que prometera ao Murakami e eu fiz uma nota de rodapé num dos livros dizendo que o Murakami tinha feito uma cama especial porque o Carver era um homem enorme, cama que está numa das casas que Murakami tem, mas que o Carver nunca pôde estrear porque entretanto morreu antes de essa tal viagem que tinha combinado. Estiveram juntos mais do que uma vez, mas numa única visita. Passaram uma tarde muito engraçada em que beberam chá. Nessa altura o Carver tinha deixado de beber, porque era alcoólico e fez várias curas. E fez um poema muito giro que está neste livro do Jay Rubin: “Educadamente bebendo chá”, chama-se assim o poema que descreve a tarde que eles passaram a falar de basebol e dos seus autores preferidos. O Carver é muito importante para mim porque os diálogos dele são extremamente importantes para a forma como eu traduzo os diálogos do Murakami. Ou seja, quando estou a traduzir tenho sempre um Carver à minha mesa-de-cabeceira. Acho que é sem dúvida um dos autores preferidos do Murakami; uma paixão comum que nós temos. O Murakami diz mesmo que o Carver mudou a maneira de ele ver a literatura, depois de muito novo ter lido um conto dele - “Tanta água tão perto de casa” – um conto perfeitamente fantástico. Mais… Joyce Carol Oates, Virginia Woolf… são tudo autores muito diferentes. O Faulkner. Os russos, que são tão importantes para o Murakami como para mim. O Dostóievsky que é capaz de ser o escritor preferido do Murakami, mas isso só ele é que pode dizer. O Tólstoi também. E gosto de tantos outros… Anita Brookner… os portugueses: Mário de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Lobo Antunes - na fase inicial, e agora acho que ele está-se a aproximar-se outra vez da escrita de que eu gosto. O Ian McEwan, que é um dos autores que eu releio mais vezes. Philip Roth também é muito importante. O Calvino, David Mitchell, outro autor actual de que eu gosto muito. E o Charles Dickens - o Dickens é um autor de que eu gosto muito. Borges, Sebald, Cormac McCarthy, são tantos…

Continua...