quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Realidade A e Realidade B [Crónica de Haruki Murakami]


Há um mês foi publicada no The New York Times uma crónica de Haruki Murakami, traduzida para o inglês por Jay Rubin, e enquadrada na Agenda Global 2011. O texto é agora traduzido pelo MURAKAMI PT, com as suas imperfeições naturais, mas com a equipa do blog segura de que fez a sua melhor tentativa possível ao traduzir as palavras. Esperemos que fiquem bem com esta mensagem do autor japonês, que serve perfeitamente de mensagem de ano novo, para que todos entremos em 2011 com optimismo e determinação.



Quais foram os acontecimentos que demarcaram o espírito do século XXI do do XX? De uma perspectiva global, foram, primeiro que tudo, a destruição do Muro de Berlim e o consequente rápido fim da Guerra Fria; e em segundo, a destruição das torres do World Trade Center no 11 de Setembro de 2001. O primeiro acto de destruição foi cheio de esperanças brilhantes, enquanto que o segundo foi uma devastadora tragédia. A convicção global no primeiro acontecimento de que “o mundo será melhor do que nunca” foi totalmente deitada por terra pelo desastre do 11 de Setembro.

Estes dois actos de destruição, que ocorreram nos diferentes lados do virar do milénio, com contextos tão diferentes em cada um deles, parecem ter-se juntado num único par que transformou fortemente a nossa mentalidade.

Ao longo dos últimos 30 anos, escrevi ficção em variadas formas, desde contos a romances longos. A história é desde sempre um dos mais fundamentais conceitos humanos. Apesar de cada história ser única, funciona como parte integrante de algo que pode ser partilhado e trocado com os outros. Essa é uma das coisas que dá às histórias o seu significado. As histórias mudam de forma livre à medida que vão inspirando o ar de cada nova era. Tendo como princípio serem mediadoras de transmissão cultural, as histórias variam drasticamente quanto ao modo de apresentação que usam. Como estilistas da moda, nós escritores vestimos histórias, à medida que elas mudam de forma no dia-a-dia, em palavras vestidas à sua medida.

Visto de uma perspectiva de tal forma profissional, parece que a interface entre nós e as histórias que encontramos enfrentam uma mudança maior do que nunca no período anterior ao mundo começar a traçar o princípio de um milénio. Se esta mudança é positiva ou menos bem aceite, isso não estou em posição de julgar. Tudo o que posso dizer é que provavelmente nunca voltaremos ao ponto de onde começámos.

Falando por mim, uma das razões por que sinto isto tão fortemente é o facto da ficção que escrevo estar ela mesma em perceptível transformação. As histórias dentro de mim vão mudando de forma à medida que inalam novas atmosferas. Eu consigo sentir claramente esse movimento a acontecer dentro do meu corpo. Além disso, ao mesmo tempo, existe uma mudança substancial na maneira como os leitores recebem a ficção que escrevo.

Tem havido uma mudança especialmente particular na postura dos leitores europeus e americanos. Até agora, os meus livros eram vistos em termos do século XX, entrando nas suas mentalidades através de portas denominadas como “post-modernismo”, ou “realismo mágico”, ou “orientalismo”; mas desde o momento em que as pessoas deram as boas-vindas ao novo século, gradualmente começaram a remover do seu dicionário mental os “ismos” e a aceitar os mundos das minhas histórias mais perto daquilo que realmente são. Tenho uma forte percepção desta mudança sempre que visito a Europa e a América. Parece-me que as pessoas estão a aceitar as minhas histórias tal como são – caóticas muitas das vezes, perdendo a lógica em variados momentos, e nas quais a composição da realidade é rearranjada. Ao invés de analisarem o caos de que são compostas as minhas histórias, parecem ter começado a conceber um novo interesse na tarefa de descobrir como se encaixarem nelas.

Em contraste, a maioria dos leitores em países asiáticos nunca sentiram necessidade da catalogação de teorias literárias quando liam as minhas obras. A maioria dos asiáticos que decidiram ler os meus livros, aparentemente aceitaram as histórias que escrevi como relativamente “naturais” desse ponto de vista exterior. Primeiro veio a aceitação, e depois (se necessário) vem a análise. Na maioria dos casos no ocidente, apesar de tudo, com alguma variação, a análise lógica chegou antes da aceitação. Tais diferenças entre o Ocidente e o Oriente, no entanto, parecem estar a desaparecer no decorrer dos anos, devido à influência que vão dando um ao outro.

Se eu tivesse de nomear um separador no processo pelo qual o mundo tem estado a passar nos últimos anos, chamá-lo-ia de “realinhamento”. Depois do fim da Guerra Fria começou um realinhamento a nível político e económico. Pouco há para ser dito acerca do realinhamento da área das tecnologias de informação, com o incrível e global estabelecimento de novos sistemas. Vivendo no centro destes processos, obviamente, seria impossível à literatura tomar uma posição em tal realinhamento e impedir tal mudança no sistema.

Uma das dificuldade que surgem neste processo de realinhamento é a perda – ainda que apenas temporária – de eixos coordenados através dos quais se formam normas de evolução. Estes eixos estiveram cá até agora, funcionando como bases sustentáveis na medição do valor das coisas. Estavam sentados na ponta da mesa como os “chefes de família” dos valores, decidindo o que era aceitável e o que não era. Agora acordamos e descobrimos que não apenas o chefe da mesa como a própria mesa desapareceu. À nossa volta, parece que as coisas foram – ou estão a ser – engolidas pelo caos.

Quando eu oiço a palavra “caos”, automaticamente me lembro das imagens do 11 de Setembro – aquelas cenas chocantes que foram mostradas um milhão de vezes na televisão: os dois aviões chocando contra as paredes de vidro das Torres Gémeas, as torres desabando sem avisar, imagens que continuam a ser inacreditáveis mesmo depois de um milhão e uma visualizações. O enredo que foi sucedido com miraculosa perfeição – uma perfeição que atingiu um nível próximo do surreal. Se o puder dizer sem ter medo de ser mal entendido, as cenas até pareciam ser qualquer coisa feita a computador para um filme de Hollywood.

Frequentemente imaginamos como teria sido se o 11 de Setembro nunca tivesse ocorrido – ou pelo menos se o plano não tivesse sucedido de forma tão perfeita. Se assim fosse, o mundo teria sido muito diferente do que é hoje. A América podia ter um presidente diferente (possibilidade muito grande), e a guerra no Iraque e no Afeganistão poderiam nunca ter ocorrido (possibilidade ainda maior).

Vamos chamar ao mundo que verdadeiramente temos agora a Realidade A, e ao mundo que poderíamos ter tido se o 11 de Setembro nunca tivesse acontecido a Realidade B. Não podemos deixar de reparar que o mundo da Realidade B parece mais realístico e racional do que o mundo da Realidade A. Para pôr o caso em termos diferentes, estamos a viver num mundo que tem um nível ainda menor de realidade do que o mundo irreal. O que podemos chamar a isto senão “caos”?

Que tipo de significado pode ter a ficção numa época como esta? Que propósitos pode ela servir? Numa altura em que a realidade é insuficientemente real, quanta realidade pode uma história ficcional ter?

Sem dúvida, este é o problema que nós escritores agora enfrentamos, a questão que nos foi dada. No momento em que as nossas mentes atravessaram o princípio do novo século, também nós atravessámos o início de uma nova realidade. Não tivemos escolha senão em atravessar, e, como podemos confirmar, as nossas histórias são obrigadas a mudar a sua estrutura. Os romances e as histórias que escrevemos tornar-se-ão sem dúvida cada vez mais diferentes em carácter e sentimento das que existiam antes, tal como a ficção do século XX é nítida e claramente diferenciada da do século XIX.

O objectivo principal de uma história não é julgar o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau. Mais importante para nós é determinar se, dentro de nós, os elementos variáveis e os valores tradicionais estão a mover-se em frente em harmonia uns com os outros, para determinar se as nossas histórias individuais e as histórias comuns aos outros estão juntas neste caminho.

Por outras palavras, o papel de uma história é manter o carácter de ponte espiritual que foi construída entre o passado e o futuro. Novas normas e valores emergem naturalmente deste processo. Para isso acontecer, temos primeiro de respirar profundamente o ar da realidade, o ar das coisas tal como elas são, e temos de aceitar sem preconceito a maneira como as histórias estão a mudar dentro de nós. Temos de cunhar novas palavras em consonância com o respirar dessa mudança.

Nesse sentido, ao mesmo tempo que a ficção (histórias) ultrapassa um severo teste, surge uma oportunidade sem precedentes. Claro que à ficção sempre foi delegada uma responsabilidade e questões com que lidar em cada época, mas sem dúvida que a responsabilidade e as questões são especialmente importantes agora. As histórias têm a função que só elas podem tomar, e que é “tornar tudo numa história”. Transformar as coisas e os acontecimentos à nossa volta na metáfora do formato das histórias, e sugerir a verdadeira natureza das situações no dinamismo dessa substituição: essa é a função mais importante da ficção.

No meu último romance, 1Q84, eu mostro não o futuro próximo como George Orwell, mas o contrário – o passado próximo – de 1984. E se tivesse havido um 1984 diferente, não o 1984 original que conhecemos, mas outro, um 1984 transformado? E se fôssemos subitamente atirados para esse mundo? Isso seria, claro, um passo na direcção de uma nova realidade.
No intervalo entre a Realidade A e a Realidade B, na inversão das realidades, quando longe podemos nós preservar os nossos valores adquiridos e, ao mesmo tempo, a que novos valores poderíamos nós aceitar e seguir com eles? Este é um dos temas do trabalho. Passei três anos a escrever esta história, tempo através do qual passei este mundo hipotético por mim próprio enquanto simulação. O caos ainda lá está – em medidas estrondosas.

Mas depois de uma boa dose de tentativa e erro, tenho a forte sensação que finalmente estou a conseguir metê-lo nos termos de uma história. Talvez a solução comece por lentamente aceitar o caos não como algo que “Não devia estar aqui”, rejeitado fundamentalmente logo de princípio, mas como algo que “é realmente um facto”.

Talvez seja demasiado optimístico. Mas como contador de histórias, como um esperança piloto da mente e do espírito, não consigo deixar de pensar desta forma – que também o mundo, após uma boa quantidade de tentativa e erro, chegará a uma nova convicção que está a chegar, que o mundo irá descobrir algumas pistas que sugerem a solução, porque, finalmente, tanto o mundo como a história já passaram pelo começo de muitos séculos e por muitas metas para sobreviver até ao dia presente.


Data: November 29, 2010
Fonte: The New York Times
Por: Haruki Murakami
Em: http://www.nytimes.com/2010/12/02/opinion/global/02iht-GA06-Murakami.html?pagewanted=1&_r=2

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O 5º Carneiro!

Eis que a Casa das Letras anunciou na sua página do Facebook que chegou às lojas mais uma reedição do livro «Em Busca do Carneiro Selvagem», de Haruki Murakami. A obra, na sua versão portuguesa, chega esta forma à sua 5ª edição.

De notar que é a primeira edição depois de Julho de 2007. O livro foi lançado em Portugal em Abril desse ano, e no espaço de três meses deu lugar a quatro edições - desde então para cá não tinha esgotado os seus exemplares. Tudo leva a indicar que isso aconteceu, e «Em Busca do Carneiro Selvagem» volta assim a marcar lugar com mais força nas lojas do país.

Um bom presente de Natal, assegura a equipa do blog. O livro é o terceiro escrito pelo autor japonês, na sequência da trilogia do Rato que o lançou enquanto escritor. No entanto, e devido ao impedimento de publicação das duas primeiras obras, «Em Busca do Carneiro Selvagem» acaba mesmo por ser a obra mais antiga de Murakami a que os leitores têm acesso com facilidade, e em português.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Crítica a «Underground - a Mentalidade de Tóquio e a Mentalidade Japonesa» (Tiago)

Um dos motivos que fazem de Haruki Murakami o meu autor preferido é o facto de partir para um livro seu sempre com a certeza de que uma maneira ou de outra me vai surpreender. Isso aconteceu com os sete trabalhos de ficção que li até agora dele, e também com o de não-ficção “Auto-Retrato do Escritor enquanto corredor de fundo”. Mesmo o seu primeiro, “Hear The Wind Sing”, que após ter terminado fiquei com uma sensação de que faltaria qualquer coisa, me tinha surpreendido pela atmosfera para onde me tinha puxado. Acontece que “Underground – O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa” é uma obra composta de entrevistas feitas pelo autor às vítimas de um ataque de gás sarin no metropolitano da capital japonesa, e na segunda metade aos membros/ex-membros da seita que provocou o atentado.

Primeiro que tudo, e antes de iniciar a minha opinião, quero deixar uma nota muito positiva à editora Tinta-da-China, que edita este livro em Portugal. É a primeira obra de Murakami que leio fora do domínio da Casa das Letras, e adorei o conceito gráfico desta edição.

A primeira metade ainda nos envolve por algum tempo. Não digo que a segunda não deixe de ser agradável de ler, mas a primeira tem ainda um toque muito particular de Murakami, nomeadamente em dois capítulos seguidos que se encontram entre as páginas 121 à 140. Estas dezanove páginas são de todo o livro as mais marcantes; atingem um elevado nível de escrita e conferem-lhe uma grande emotividade. O segundo desses dois capítulos, particularmente, e apesar de não-ficção, está carregado das palavras e do génio do escritor japonês. São páginas de arrepiar e, no fim, aplaudir, ainda que só vamos a um terço do livro e falte ainda muito para terminar. Mas o que senti é que, se o livro terminasse ali, já não ficávamos mal servidos de todo. Foram talvez 20 das melhores páginas que li neste ano de 2010.

Que pena é, no entanto, que esse expoente não se tenha esticado mais. O livro é um retrato de pessoas, que falam de si próprias e das suas vidas. E sim, é espantoso o trabalho jornalístico feito por Murakami, é espantoso o painel de vidas a que de repente temos acesso, é interessante ver as dezenas de perspectivas diferentes acerca de um único acontecimento. E em relação à segunda metade, o interesse e a curiosidade mantêm-se em descobrir que, afinal, os membros da seita Aum são afinal pessoas normais, que podiam ser qualquer um de nós. Sem qualquer ligação ao atentado, muitos não queriam acreditar sequer que tinha sido a sua religião a provocar tal monstruosidade.

É, pois, ponto assente: o livro está original e muito bem concebido. Para um ensaio de não-ficção, composto por dezenas de entrevistas, e um retrato dos acontecimentos passados no dia 20 de Março de 1995 em Tóquio, está aqui uma obra de grande valor – e à qual tenho a certeza que o autor dispensou todos os seus esforços e profissionalismo.

Não posso, no entanto, dizer que fiquei totalmente satisfeito com esta leitura. Porque não fiquei. Com os autores muito bons, há sempre o risco de haver um livro que esteja um pouco abaixo daquilo que nos habituou, e depois desilude-nos. Acho muito boa a capacidade que ele tem de se dividir entre os estilos narrativos e os de investigação e ensaio, mas a verdade é que “Underground” não me deixou agarrado, por exemplo. Enquanto um todo, é interessante, mas ao longo da leitura foram poucos os momentos em que senti “não posso parar, vamos lá ver como é que isto continua”. É um estudo, eu diria quase um retrato social. Fica-se a aprender muito sobre o Japão e o modo de vida das pessoas. E sim, isso foi muito bom e saio mais rico desta leitura. Mas faltou um qualquer tempero que esperaria vindo de Murakami. Excepto naquelas vinte páginas. Aquelas vinte páginas…

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mais sobre a curta "O Segundo Assalto à Padaria"


Embora na actualidades internacional estejam a dominar os artigos sobre o filme Norwegian Wood, a estrear nas salas de cinema japonesas a11 de Dezembro, e ainda sem data marcada para Portugal - existem também notícias sobre a curta-metragem que anda a ser exibida em festivais norte-americanos, baseada no conto de Haruki Murakami "O Segundo Assalto à Padaria".


Deixo-vos com algumas imagens que vão sendo divulgadas na internet, assim como um excerto de trinta segundos disponível para visualização. Em inglês, sem legendas.


TheSecondBakeryAttack from Morelia Film Fest on Vimeo.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

[Crónicas da Tradutora] - 1Q84

O MURAKAMI PT inicia a partir de hoje uma parceria regular com a tradutora portuguesa do autor Haruki Murakami - Maria João Lourenço - que puderam conhecer melhor a partir da entrevista exclusiva que publicámos no blog ao longo das últimas semanas. Pelo nosso lado, achámos a conversa tão interessante, ficou tanta coisa por dizer e divagar, que nos custava um pouco que este contacto tão produtivo com a tradutora se ficasse por aqui. Decidimos, pois, apresentar uma proposta à Maria João, que foi atendida com entusiasmo também pela sua parte: no primeiro dia de cada mês será publicada no blog uma crónica escrita pela tradutora, com o seu ponto de vista, sobre um determinado subtema englobado no grande tema que é Murakami. De uma coisa estamos certos: com a multiplicidade de obras e discussões existentes, dificilmente faltará assunto; e: a opinião e a presença de Maria João Lourenço, a tradutora das suas obras para a nossa língua, será uma mais valia a todos os leitores portugueses já agarrados pelas narrativas do japonês. As crónicas da tradutora começam já este mês de Dezembro de 2010, com uma crónica dedicada a «1Q84», o mais recente livro de Murakami publicado no Japão. Será traduzido para português durante os próximos meses, e sairá ao mesmo tempo cá que a tradução inglesa na América. Maria João Lourenço deixa-nos com uma boa prespectiva do que podemos esperar deste romance...
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1Q84. O primeiro capítulo do Livro 1 (Abril a Junho) tem nome de mulher. Aomame. Traduzido à letra,«ervilha verde» (Ao-mame), se querem mesmo saber os mais curiosos. «Se eu não tivesse vindo ao mundo com este nome», interrogava-se ela muitas vezes, «quem sabe?, talvez a minha vida tivesse conhecido um rumo diferente...». Não é caso para terem pena, que ainda a procissão vai no adro, e nós, leitores privilegiados e fiéis de Murakami, seguimos viagem num táxi na companhia desta ninja moderna, nascida em 1954, que identifica – aos primeiros acordes – a Sinfonietta de Janáček, difundida por uma estação de música de clássica. O cenário tem o seu quê de estranho, mas, acreditem, ainda viram muito pouco, e não vou sequer fazer a descrição do condutor do táxi, uma vez que no segundo capítulo, chegados à página 26 da edição alemã (belo exemplar da Dumont, verde sobre prata, com MURAKAMI estampado a toda a largura da lombada), travamos conhecimento com Tengo, personagem masculina.

Prende-se com o tempo, a primeira recordação do jovem. Lembra-se de ver a mãe a dar o peito a um homem, que não era o pai. Intuitivamente, soube que era ele que estava deitado no berço, bebé de meses. Pensa em si na terceirapesso. Já adulto, Tengo conta com um parceiro que trabalha no mundo editorial, de seu nome Komatsu,e que tenta convencê-lo a editar um romance escrito por outra pessoa (A Boneca Insuflável), com o qual poderia candidatar-se ao mais importante prémio literário japonês. São ambos jovens e um tanto inconscientes, percebe-se, apesar de terem consciência política e de terem tomado parte no movimento estudantil quando estudavam literatura na Universidade de Tóquio (protestaram contra os acordos de segurança entre o Japão e os Estados Unidos). Tal como acontecia em Kafka à Beira-Mar, também no romance 1Q84 encontramos uma estrutura paralela: a um capítulo centrado na figura de Aomame, sucede outro encabeçado por Tengo. A par da estrutura, o mundo paralelo é outra certeza. Se o 1984 de George Orwell é para aqui chamado, mais adiante se lerá.

Para começar, temos uma história de amor e morte, marcada pela violência, num mundo em que existem seitas religiosas, como aquela que marcou a história recente do Japão e que Murakami retratou em Underground – o Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa (Tinta-da-China) e, algures, o Povo Pequeno. Em última análise, um romance genuíno, com a assinatura de um escritor japonês que escreve sobre o seu país sem deixar de descrever a espécie humana. Mas estamos a adiantar-nos; mais vale esperar pela tradução inglesa a cargo de Jay Rubyn (ocupou-se dos dois primeiros livros) e Philip Gabriel (ficou com o Livro Três). O taxista que transporta Aomame, logo que o romance arranca, bem avisa: «Não se deixem enganar pelas aparências. A realidade é só uma.» Os leitores portugueses terão de esperar até meados do ano que vem para lerem a tradução. Pela minha parte, mal posso esperar para começar a traduzir.

Maria João Lourenço


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

[Pt 4/4] Entrevista Exclusiva à Tradutora!


Final

Após o desligar do gravador, a sensação que paira no ar é a de um sonho. Pelo menos da parte da equipa do blog. Olhamos para o relógio e confirmamos que a conversa durara tão mais do que imaginaramos - uma hora e quarenta e cinco minutos. Cada um acaba a sua bebida, e pedimos autorização para fotografar alguns dos livros que Maria João Lourenço trouxera para vermos. Tocamos num autógrafo de Haruki Murakami, e, mesmo que fosse só por isso, aquele dia já tinha sido diferente. Lá fora, um Campo Pequeno inundado de sol, numa temperatura amena de princípio de Outono. Tiramos as últimas fotografias, desta vez à tradutora. Despedimo-nos sorridentes - foi uma manhã bem passada e temos de repetir numa próxima vez. Ao entrar no metro no caminho de volta para casa, olhamos um para o outro (a Marta para o Tiago, o Tiago para a Marta), e fica a pergunta no ar - se terá sido realidade, ou se caímos num romance do japonês. Tendemos para a segunda hipótese...


MPT - Há pouco estávamos a falar de catalogarem Murakami como pertencente de uma cultura pop. Acha que isso é alguma espécie de obstáculo ao Prémio Nobel da Literatura? É por isso que ele depois acaba por não ganhar?

MJL – Sinceramente, eu acho que o rótulo não corresponde à verdade. Mas acho que pode ser um obstáculo, sim (risos). Na mente dos senhores que escolhem o Prémio Nobel. O Prémio Nobel da Literatura e o Prémio da Paz são sempre os Prémios Nobel mais difíceis de nós conseguirmos perceber a lógica deles. O senhor da Medicina fez isto, o senhor do ramo da Química … Estes são mais subjectivos, e por vezes esta subjectividade escapa-nos um pouco. Nos últimos anos, houve alguns que eu nunca tinha lido e continuo sem ler, muito embora perceba a notoriedade e a importância da obra deles, é evidente. Mas reconheço que são nomes desconhecidos, que continuam a ser-me desconhecidos. O Orhan Pamuk, por exemplo, para mim, foi um bom Prémio Nobel. Dos últimos anos talvez tenha sido o mais significativo, porque é um homem que escreve bem e que tem tomadas de posição importantes no mundo de hoje em dia, ou seja, tem uma voz, defende as suas opiniões, tem tomado posições corajosas. E acho que isso é importante. Importa premiar um autor que não tenha 80 ou 90 anos ou que esteja a caminho da reforma. Dizem que Murakami é o eterno candidato. Há muito tempo que o Oriente não recebe o Nobel. Não estou a ver mais nenhum oriental a quem o prémio possa ser dado, francamente. Se essa for a lógica! A lógica não devia ser essa – devia ser: este homem tem uma obra, e é importante, e vamos premiá-lo. Não devia ser tão matemático assim. Agora que ele tem construído uma obra muito interessante, e tem um discurso interessante igualmente sobre uma série de questões… é um homem que talvez seja um bocadinho da retaguarda, talvez seja um homem da cultura cauteloso, talvez não apareça tanto, talvez não faça defesa das posições políticas. Talvez não percorra as “capelinhas certas”. Estes dois prémios que ele recebeu em Espanha, por exemplo, dizem bem a importância que ele tem a nível de certas culturas. Quer dizer, estamos a falar de um escritor frequentemente entrevistado e citado nas revistas e nos suplementos literários espanhóis. Portanto, ele é reconhecido em certos meios. Aqui em Portugal é que é um bocado esquecido, como digo… no princípio não era tanto assim, eu tenho saudades que pessoas como, por exemplo… o João Céu e Silva, do DN, escreve sempre muito sobre ele. Mas lembro-me que no início a Bárbara Reis e o Rui Tavares escreveram, e com propriedade, artigos longos sobre ele e sobre a sua obra. O José Mário Silva também chegou a escrever sobre ele. E agora tenho pena que isso não aconteça nas páginas dos jornais em que se escreve sobre livros. Artigos em que se possa falar um bocadinho da obra dele, porque o que sai, sai em colunas de texto muito pequeninas, que não dá para aprofundar nada. Eu lembro-me perfeitamente de ter lido textos bons onde se ia ao fundo da obra dele. Porque é triste ver sempre um autor quando sai um livro dele – um autor da ordem do Murakami – ver a obra dele reduzida a quatro parágrafos… onde dois parágrafos são a falar da obra anterior! “Fez estes livros assim, assim, assim… e neste livro…”, e depois vem um resumo da obra. Quer dizer, o que eu quero é que me digam o que é que está ali, quero ter uma análise interessante sobre aquela obra. E é isso que eu acho que falta à crítica portuguesa, a capacidade de pegar num livro e de o interpretar – à luz do pensamento de quem escreve! Duas estrelas, uma estrela, não presta, não é bom, não gosto… mas importa analisá-lo! É um autor um bocado esquecido em Portugal, e não entendo isso, francamente.

MPT – Acha que as vendas em Portugal não correspondem ao que se observa noutros países, proporcionalmente?

MJL – Não, correspondem! Um autor muito vendido em Portugal, sim! Dos autores mais vendidos da Casa das Letras. E é tanto mais espantoso quanto não é muito falado na imprensa!

MPT – Então, especificamente no caso português, o que é que as pessoas procuram em Murakami? O que as leva a comprar os livros dele?

MJL – É um autor que vende, quase uma coisa de boca a boca. Eu acho que Murakami - ainda há pouco falei um bocadinho nisso - consegue meter-se na pele das suas personagens, ele consegue descrever os estados de ansiedade do homem moderno. E fala de uma forma simples – sem ser simplista. Há livros complexos. Mas é engraçado, eu acho os livros complexos – a “Crónica do Pássaro de Corda” eu acho um livro completo – mas eu acho que mesmo os livros mais difíceis dele conseguem ser lidos por uma pessoa que não seja muito culta. Acho que uma pessoa que não entenda muito do que ele está a escrever ou a dizer consegue ler o livro na mesma. Consegue chegar ao fim. Quanto muito pode não perceber que ele está a falar de Freud ou de Jung, ou do que quer que seja, mas passa à frente! Porque a forma como ele passa a mensagem é importante. É a tal coisa, porque ele escreve com humor, muito embora o humor esteja disseminado! Ele tem atenção a isso, e fá-lo num bom ritmo. Aí está: este livro do Jay Rubin chama-se “Haruki Murakami and the Music of Words”. Ele tem atenção à importância das palavras, em japonês, mas os tradutores também têm atenção a isso. Eu também tenho um certo cuidado quando traduzo… eu acho que as pessoas se sentem compreendidas ao ler os romances dele. Sentem-se representadas ali. E depois a escrita… flui. Tem o tal ritmo… ele diz que “A ficção é uma coisa viva”. “A living thing”, eu traduzo o Jay Rubin. É verdade. Porque ele escreve para – ele diz muitas vezes isso – escreve para se conhecer a si próprio. Mas nesse processo de auto-conhecimento ele vai permitindo que os leitores se vão conhecendo a si próprios também. Eu acho que nos diálogos muito vivos. A forma muito engraçado, às vezes. Sempre sem perder o humor!

MPT – Há intenção de publicar esse livro do Jay Rubin – “Haruki Murakami and the Music of Words” - em Portugal?

MJL – Sim, a Casa das Letras gostava de traduzir este livro. Já andamos com este projecto há muito tempo. Como não será um projecto para muitos exemplares, temos estado a adiar. Gostávamos inclusivamente de o actualizar. De conversar com o Jay Rubin sobre o projecto, já se falou nisso.

MPT - De todos os livros que já traduziu, qual é que considera ser o seu preferido? E porquê?

MJL – Eu agora estou esperançada que o “1Q84” seja o meu livro preferido, não é? Murakami costuma dizer que Dostoiévski – que é um dos preferidos… não diz que é o preferido, mas ele às vezes descai-se e diz que é o autor preferido dele - que os melhores livros do Dostóievski vieram depois dos sessenta anos. E ele quando diz isto, é um paralelismo pouco subtil que se estabelece. Ele deposita grande fé neste livro. Só agora comecei a ler, não posso dizer “Ah, este é um começo prometedor”. Tem música! Música sinfónica moderna, logo… “Em Busca do Carneiro Selvagem” talvez seja o meu preferido. “Kafka à Beira Mar” é o livro que me parece mais surpreendente… e percebo porque é que as pessoas gostam mais dele, ou seja, não é difícil perceber porquê! E tenho que confessar que os contos, concretamente este conjunto de narrativas curtas do “O Elefante Evapora-se” é muito conseguido. Encontro aqui histórias que gosto, portanto tive muito gosto em traduzir este ‘O Elefante Evapora-se’. Há aqui histórias… eu volto sempre a “Sono”, porque acho que é, aí está, o conhecimento do mundo feminino. Sem sexo, mas… (risos) é uma história completamente delirante. “O Segundo Ataque à Padaria”, também, é uma história espantosa. Acho que podíamos ter estado aqui duas horas a falar disso, porque há ali coisas interessantíssimas…. Claro que o “Sputnik, Meu Amor” é sempre um amor primeiro! Eu olho com muita ternura para este livro. Há imensa gente que gosta muito desse livro, para quem ele é o livro eleito. Mas… são todos diferentes. Falaram no “Em Busca do Carneiro Selvagem”. É um livro especial. Gosto mais desse que do “Dança, Dança, Dança”, apesar de “Dança, Dança, Dança” ser importante para Murakami. Mas “Em Busca do Carneiro Selvagem” permitiu-o afirmar-se como escritor. Foi um livro que também me marcou…

MPT – Quais são as perspectivas de uma visita de Murakami a Portugal?

MJL – Nós temos tentado, na Casa das Letras. Eu mando-lhe umas coisas para o Japão, umas encomendas. Uns sabonetes para a Yoko, a mulher do Murakami gosta daqueles sabonetes portugueses que nós temos… a ele vou-lhe mandar umas camisolas da selecção. (risos) Aquelas que saíram com o jornal “i” a imitar as antigas. Tenho uma para lhe mandar. Ele tem uma assistente muito simpática – a Yuki. Vou-lhe mandar também as coisas, e vou escrever-lhe. Tenho manuscrito um texto a tentar, se ele vier a Espanha - mas ele não gosta de ir aos países segunda vez - a tentar que da próxima vez, em vez de vir a Espanha, uma vez que já conhece… já comeu polvo, que venha comer o nosso polvo à lagareiro! (risos). Gostava muito de o conhecer. Gostava imenso de o conhecer. E de falar com ele. Se calhar era mais fácil eu ir ao Japão, ou então ao Havai, à ilha de Hauai, onde ele tem aquela casa…

MPT – Gosta muito de “LOST” [a série de televisão “Perdidos”].

MJL – (risos) Se calhar agora está a ver o ‘The Event’, com gosto, não é? (risos)

MPT – E por último, uma pergunta que é assim um bocadinho subjectiva, mas… o que é que a Maria João acha que os leitores ainda podem esperar de Murakami, a médio prazo? Que obras é que ele ainda nos vai poder trazer? Depois de tudo o que já escreveu, o que é que acha que se segue?

MJL – Uma coisa é certa: eu acho que ele vai continuar a surpreender-nos. Acho que este autor não vai parar, ou seja, mesmo que ele considere que esta obra seja a obra importante que ele estava à espera de conseguir escrever, mesmo que ele tenha dito isso em tom de brincadeira – ou não –, depois desta eu espero pela próxima. Tenho a certeza absoluta de que este homem tem imaginação, tem capacidade de trabalho, tem coisas para dizer para além destas 1200 páginas, que estão contidas neste romance. Pela forma física como ele está, não é?, não correndo a maratona mas correndo a meia-maratona – continuando a apostar no triatlo – e continuando a fazer aquela vida mais ou menos espartana –, era por isso que eu dizia que ele era disciplinado ao contrário de mim… Fazemos os nossos horários de trabalho semelhantes, temos muitas coisas parecidas, mas aí ele é disciplinado: come, bebe, – tirando a sua cervejita –, é disciplinado nas coisas. Portanto, eu acredito que Murakami continue a produzir a um ritmo regular. Porque ele não é – e nisso também contraria aquela imagem de escritor fácil, que escreve o romance que está aí à mão de semear no aeroporto, fácil para ser levado para ler no avião – ele produz quando tem de produzir. Ele senta-se à secretária e escreve… como um autor que escreve para se conhecer, é um trabalho que está sempre a ser feito. É um trabalho que é eterno. Não vai parar. Eu estou em crer que ele vai continuar a surpreender-nos. E que depois desta obra de fôlego – ou não –, outros trabalhos virão. Quer dizer… tenho fé neste escritor (risos), parafraseando um título que eu também traduzi, da Joyce Carol Oates, “A Fé de Um Escritor”. Tenho muita fé neste escritor. Não é apenas a imaginação, é de facto a capacidade de trabalho, e a vontade de continuar a marcar presença, a fazê-lo no seu ritmo. Portanto… eu acho que esse até é um bom argumento para a Academia sueca, porque ele, não andando nas bocas do mundo, faz o seu trabalho de uma forma inteligente. Dando poucas entrevistas mas quando tem de dizer as coisas também as diz. É um escritor surpreendente. Acho que ainda vamos ter obras importantes dele depois desta. Não acredito que “1Q84” seja a última.

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Ainda agora acabou de ler e já tem saudades das opiniões de Maria João Lourenço acerca do autor que traduz em Portugal? Gostava que a sua voz se continuasse a ouvir frequentemente aqui pelo MURAKAMI PT? Fica a sugestão de regressar amanhã... pode ser que tenha uma surpresa...